Conto: Passos Incertos
Passos Incertos

♣ Capítulo 1
Ali me deparava novamente a sofrer os efeitos de uma junção de várias substâncias que se classificam de droga. Ria de um jeito solitário junto dos meus colegas. O momento conduziu a um riso em grupo. Naquele momento apenas e a minha cabeça parecia-mos existir, não pensava em nada. Era em nada que queria pensar, razão pela qual fumava.
Os meus colegas não sabiam o que devastava a minha mente, por vezes nem eu próprio sabia. Havia dias em que estacava isolado em casa, cogitava sobre a vida e chorava sem razões, como se esta fosse mais fácil gotejando. Quanto fumava, esquecia o meu pai, verbalizando que nada faço e pronunciando que pouco valo. Para este, escrever e cantar era zero e tudo para além do seu trabalho não tinha valor. Nunca percebi qual o mal de investir em algo em que acreditamos conseguir imprimir algum valor.
Tinha parado 30 minutos da minha vida, meditando em nada e meus amigos já tinham saído. Dirigi-me a casa, subi as escadas que me afastavam do meu quarto, peguei em meu caderno e escrevi. Atualmente escrevia o que apelidava de “a minha própria existência”. Não era algo que milhões de pessoas tencionassem ler, mas era algo que me facultava uma determinada dose de satisfação quando o fazia. Escrevia sobre o meu dia-a-dia, o que pensava e sobretudo o que vivia. Nunca gostei de repetir os meus erros, lutava para que as pessoas os conhecessem e não caíssem sucessivamente como comigo acontecia. Atualmente era apenas um livro, um rascunho com rabiscos, com letras que apenas eu compreendia.
Um novo dia eclodiu e com ele a sujeição de ir à escola. Estava somente dependente de uma disciplina, razão pela qual não possuía motivos para me queixar de falta de tempo livre. Fui mais cedo para a escola e como era hábito parei primeiro no spot, a fim de encontrar pessoal amigo, mas ninguém estava presente. Decidi então passear a escola sozinho para passar algum tempo. Não existia ninguém nas redondezas.
Era engraçado como em tempo de aulas a escola ficava tão tranquila. Tão oca. Tão sem vida. Era um contraste claro com o intervalo, sinónimo de euforia e confusão. No meio de toda aquela solidão consegui avistar uma rapariga. Esta encontrava-se sentada sobre a relva, que ouvia música no que parecia ser um ipod. Parecia ser mais nova que eu e vestia uma roupa preta e rasgada. Tinha o cabelo tingido por duas cores, loiro e preto e os seus olhos encontravam-se coloridos com um forte negro. Embora a descrição pareça negativa, tudo isso lhe conferia beleza. Passei atento a ele, não conseguia simplesmente desviar o olhar, como também não conseguia apenas passar. Decidi aborda-la.
- Gosto muito dessa música que ouves – disse tentando colocar assunto.
Fiquei por momentos esperando por uma resposta, mas o som impediu que esta tivesse ouvido o que disse.
- O que disseste? – disse esta.
- Disse que gostava bastante da música que ouves.
- Conseguias ouvir? Não pensei estar tão alto – disse esta impressionada.
- Sim conseguia e a alguma distância, mas tudo bem, também aprecio música alta. Chamo-me Tiago e tu?
- Catarina, mas toda a gente me trata por Kate.
Trocamos um beijo e alguma conversa, durante o tempo restante para o intervalo. Depois tocada a campainha, dirigimos-nos em caminhos diferentes. Passei a aula de matemática pensando na tal rapariga. Para além de bonita, era inteligente, simpática e muito divertida. Acabada a aula dirigi-me ao spot, para me encontrar finalmente com algum pessoal.
Caminhei pouco, visto que o spot se distanciava por poucos passos da minha escola. No curso recordei a relva onde Kate havia estado sentada. Agora encontrava-se desabitado. Recapitulei nossa conversa e relembrei igualmente o seu agradável sorriso. Fiquei satisfeito por avistar os meus amigos passos à frente. Não demorei muito e após uns minutos de conversa segui rumo a casa.
Cheguei a casa pouco depois. Estava vazia. Minha mãe ainda trabalhava, faltava cerca de uma hora para o almoço. Liguei o computador e minha cabeça brilhou com a ideia de procurar a suposta Kate no facebook. Presumia eu que ela deveria ter e que não seria difícil de encontrar. Vi a hora cessar rapidamente, sem encontrar nada, sem a encontrar. Pensava agora como tinha sido tão estúpido ao ponto de não pedir contacto. Nem telemóvel, nem email, rigorosamente nada. Tinha de a encontrar novamente, e desta vez tinha de lhe pedir contacto. Não poderia ser assim tão difícil, a escola não é tão imensa, e encontrar uma pessoa deve ser fácil.
Minha mãe chegou. Almocei calado e saí logo de seguida, não conseguia estar em casa, sabendo que aquela rapariga se encontrava por aí à solta. Não tinha aulas, nem vontade de entrar na escola, mas foi o que fiz, e confesso ter passado a tarde dentro de corredores, para a frente e para trás, sem sinal dessa tal miúda. Decidi desistir, e ir ao spot que agora se encontrava vazio, para poder refletir. Avistei o local, e avistei alguém. Afinal não estava vazio como pensava estar, mas quem estaria lá? Não conseguia ver-lhe a cara. Apenas podia dizer que tinha carapuço e se encontrava a fumar. Decidi aproximar-me e dizer olá. Há medida que este levantou a cara, consegui perceber que era a Kate, com olhos de quem tinha fumado um saco de droga.
- Tu? – disse esta assustada.
Bloqueei, não a aguardava ali naquele preciso momento. Não naquele local. Tinha uma determinação enorme em a descobrir até agora, mas depois de a ver, sobretudo naquelas condições não sabia o que disser ou como reagir. Pensei que aquele local, era apenas nosso. Pensei que apenas eu e os meus colegas soubessem da sua existência. O famoso spot, não passava de uma casa lindíssima agora abandonada e coberta de musgo e sujidade, com apenas uma divisão tratada, divisão essa que abarcava agora sofás sem qualquer indício de pó e uma mesa apenas.
Kate encontrava-se sentada num desses sofás, contraída e de cabeça entre os braços que a tapavam em conjunção com o carapuço. A admiração dela era percetível na sua cara, tal como eu não deveria esperar visitas. Ganhei forças e decidi falar, precisava de saber o que fazia esta ali, sobretudo naquelas condições.
- Olá. Prazer em ver-te. O que fazes aqui e o que raio se passou contigo para estares nesse estado? – perguntei eu, ansioso por receber uma resposta.
- Pensei ser a única a conhecer este local, confesso que me admirei com os sofás novos, mas nunca encontrei ninguém aqui a esta hora – respondeu esta, deixando a segunda parte da pergunta pendente.
- Estes sofás foram recuperados por mim e pelos meus colegas, e também pensei que fossemos apenas nós a conhecer este local.
- Isso quer dizer que não me querem aqui? – disse esta com ar preocupado.
- Não, nada disso, posso falar com eles, mas neste momento quero falar contigo.
- Comigo? Que fiz eu?
- Não me vais contar porque estás nesse estado? Ou vais continuar a fugir da questão? – disse eu com maior rigidez na voz.
- Não posso, nem quero – disse esta levantando-se.
Ao levantar-se Kate acabou por desmaiar e cair no chão mesmo à minha frente. Entrei em pânico, não sabia o que fazer. Sabia que não podia ligar a uma ambulância, com a dose de droga que esta haveria consumido iria ter problemas. Achei que a melhor solução e a mais sensata seria leva-la para minha casa. Foi o que fiz.

♣ Capítulo 2
Peguei-a em meus braços, e transportei-a para minha casa. Passei pelo trilho mais demorado, mas desprovido de pessoas, desviando assim as atenções. Não tencionava que pensassem erradamente, sobre o que se havia passado. Abri a porta de entrada, já cansado dos braços, não pelo facto de Kate ser pesada, mas sim pelo longo caminho que tive de percorrer com ela em meus braços. Subi ao piso superior, e deitei-a em minha cama, esta continuava inconsciente. Há medida que passava minha mão na sua cara pôde constatei que se encontrava bastante quente, talvez tinha febre. Desci as escadas novamente à procura de uma toalha que pudesse molhar e passar na sua cara, para tentar baixar a temperatura. Encontrei uma, molhei-a e passei-a em sua cara. Há medida que o fazia, a sua pintura ia caindo. Seus olhos pretos, agora encontravam-se desprevenidos de escuridão. Eu sabia que ela era lindíssima, mas depois daquilo não me restava qualquer dúvida. Fiquei a observa-la por vários minutos até que esta finalmente abriu os olhos, e meio assustada proferiu.
– Que se passa? Onde estou? Que aconteceu?
- Tem calma, estás em minha casa, está tudo bem – disse eu tentando acalma-la.
- Mas como vim aqui parar? E porque estou assim toda “borrada”, diz-me o que se passou.
- Tem calma, eu encontrei-te, naquele local, estavas sentada, lembras-te disso?
- Sim lembro, mas conta-me mais… – disse esta meio stressada.
- Tu querias ir embora, e tentas-te mas desmaiaste logo depois, o que fiz foi trazer-te ao colo, até minha casa.
- E porque estou assim? Porque tenho a cara molhada? – disse esta curiosa.
- Haa isso, foi porque estavas demasiado quente e então pensei ser boa ideia para ficares mais fresca, pensei que pudesses ter febre.
- Pois na verdade sinto-me um bocado quente e tonta… Obrigado por tudo a sério, mas talvez seja melhor ir-me embora, não quero estar a incomodar – disse esta levantando-se.
- Não! Não te vou deixar sair sem antes me contares o que se passou, porque que te aconteceu aquilo, conta para mim… Acho que é o mínimo que podes fazer, não te parece?
- Não chores por favor… Fala comigo, prometo que não te julgo – disse eu a fim de lhe inspirar confiança.
- Pois não devia chorar mesmo por quem não me merece – disse esta limpando as lágrimas.
- Quem não te merece? Fala de uma vez.
- Não aguento mais, simplesmente não aguento. Estou farta de ser julgada em casa, pela roupa que trago vestida, farta de ser julgada na rua pela minha aparência, farta que me coloquem um rótulo, só pela parte exterior. Farta que não procurem conhecer o meu interior, que apenas me lancem bocas como se tivesse feito mal a alguém. Gostava que eles percebessem que não tenho culpa em ser diferente e que não sou inferior a ninguém por o ser. Possa, este mundo está cheio de pessoas com as mesmas ideias, com o mesmo aspeto, com os mesmos feitios, qual é o problema de querer ser diferente?
- Kate, eu não vejo qualquer problema em ti, até pelo contrário, és uma rapariga sincera, verdadeira, amiga, não vejo mal nisso.
- Pois mas há sempre quem veja – disse esta.
- Não ligues… Sê quem tu és, e quem sabes que és, o que importa a opinião de pessoas que não te conhecem, aliás, que nem se dão ao trabalho de te conhecer? Vale zero.
- Acho que tens razão, obrigado, Tiago não é?
- Sim é isso.
- Acho melhor ir-me embora, começa a fazer-se tarde e também não quero causar-te nenhum problema – disse esta encaminhando-se para a saída.
- Eu faço-te companhia, lembra-te que não viste o caminho para cá, é natural que não o saibas fazer de volta.
- Ok então, agradeço novamente.
E assim foi, saímos ambos de minha casa, rumo a um local onde Kate pudesse seguir.
Acordei cedo, pois tinha de me arrastar para a escola para ter uma aula de matemática, foi o que fiz apesar de muita dificuldade. Não sabia porque o fazia, ou porque lá ia, aquilo para mim era chinês ou uma qualquer língua irrealizável, impraticável e inexequível. Apesar de o quadro estar lotado de símbolos e fórmulas matemáticas, que deveriam completar parte do meu caderno, o mesmo não acontecia. Este abrangia palavras, interligadas em poemas, não me lembro muito bem, mas soava a algo como isto:
Ontem, meu mundo cessou para te ver
Parou para te beijar, e ver o amor suceder
Ontem, beijei teu ser, beijei teu interior
Ontem percebi, que o que sinto é amorPercebi, que fazes parte do jardim onde te encontrei
Percebi também, que és a rosa que dele eu guardei
Percebi que minha vida, só faz sentido contigo a meu lado
Percebi que após ontem, só posso sonhar acordado.
Para além de poemas, encerrava rabiscos de um desenho, de uma face, a face de Kate. Nunca tive jeito para o desenho, por isso opto por não mostrar. A aula acabou bastante rápido, não retive nada desta, naquele momento nem me fazia grande diferença, porque minha cabeça estava atestada com pensamentos de Kate. Saí da sala, e fui rumo ao spot. Há medida que me aproximava vi os meus amigos cercados de polícia e de várias pessoas curiosas que se tinham amontoado à volta do recinto. Perguntei ao Jonny o que se passava preocupado, pois não percebia o porque de estar ali a polícia. Este disse-me “Parece que foi uma rapariga qualquer, que se suicidou. Uma daquelas punks, não fazia muita falta”. Meu cérebro bloqueou, por duas razões, primeira achava totalmente parvo ele disser, que não fazia falta, sendo uma pessoa, é claro que uma pessoa faz falta! Existe sempre quem a ama, e para essas pessoas é como se um bocado de si próprias se tenha apagado. E em segundo lugar porque não conseguia tirar da cabeça a ideia que pudesse ser Kate, a cometer tal feito. Pensei que ela ontem tivesse ficado bem, não consigo acreditar. Comecei a correr e furei toda a polícia que me tentou impedir de entrar no local, quando entrei, vi… Pendurada por uma corda, morta e pálida…

♣ Capítulo 3
As paredes encontravam-se pintadas de preto, assinaladas por misteriosos símbolos. No chão estava marcado um círculo, arquitectado por velas que já se viam derretidas, o que apontava para o facto de já teriam sido ateadas á certo tempo. A rapariga, morta e ténue, colocou lágrimas nos meus olhos, era algo que não acreditava ver, pelo menos na vida real. Estava desgostoso pelo sucedido, apesar do meu consciente estar sorrindo por saber que não era Kate que se encontrava abrangida por aquela corda. Não conseguia traçar minha vida sem ela, mesmo sabendo que esta não gostava de mim, ou talvez da forma como beijava. Mas necessitava de pelo menos sentir a sua presença e saber que esta estava bem. Segundos depois vi meu pensamento detido por um polícia que me disse “ Qual a tua ideia garoto?
Não podes estar aqui! Vá sai, deixa isto para a polícia, já chega de problemas por hoje”. Enquanto abandonava o local, consegui denotar uma tatuagem que a rapariga ostentava no seu pulso, mas não fiz grande caso. Saí a correr dali. Segui a correr para casa, cheguei ao meu quarto e deitei-me na cama, chorando. Quando estava quase a desvanecer em sono, sou interpelado pelo toque da campainha. Achei estranho, não poderia ser a minha mãe, muito menos meu pai. Desci e abri a porta, era Kate.
- Que fazes aqui? – disse eu surpreendido.
- Andava aqui perto, e decidi passar por cá, fiz mal?
- Não, fizeste bem, acho que estava a precisar de companhia – disse eu denotando tristeza.
- Estás triste sobre o que se passou no local onde tu e os teus colegas iam?
- Como sabes disso? – disse eu impressionado.
- Haa, sabes as noticias correm rápido, apenas isso, mas vai convidar-me para entrar ou não? – disse esta meio nervosa.
- Sim claro entra.
Ascendemos ao andar superior, e fomos diretos ao meu quarto. Liguei o televisor para evitar que o silêncio constrangedor se instaurasse.
- Diz-me porque vieste aqui? – perguntei curioso.
- Já te respondi a isso, não tinha nada para fazer e estava aqui perto, então decidi passar, mas se quiseres que vá eu vou.
- Não nada disso, podes ficar, apenas acho que não vieste apenas por isso – disse sem medo.
- Então porque achas que vim?
Nesse preciso momento, sabia que tinha de arriscar, e fazer algo que já tinha feito antes, mesmo que mal sucedido. Aproximei-me de seus lábios e sem pedir permissão para o fazer, beijei-os.
- Foi por isto – disse eu sorrindo.
Esta perdurou sem reação, corou e pensei que iria bater-me ou levantar-se e simplesmente sair, mas não o fez. Aproximou-se de mim e de relance beijou-me novamente. Segundos depois estávamos ambos deitados na minha cama, lado a lado, cruzando beijos, beijos esses que nunca haveria trocado com ninguém, pelo menos assim tão violentos. Tinha algo em meu corpo que me fazia entender que não iríamos trocar apenas beijos. Envelhecidos pequenos instantes, ambos nos encontrava-mos despidos. Passei minha mão bem como meus lábios em seus seios, formosos, excitados no momento. Beijei seu pescoço, enquanto descobria um pouco mais de seu corpo. Descendia minha língua por seu corpo, desde seus lábios até ao fundo de sua barriga, aumentado sua vontade. Enquanto fazíamos sexo, focava seus olhos, sublimes demais para conseguir olhar em outro lado, olhos que de tão profundos, apetecia explorar e descobrir tudo o que desvendavam. Acabado o ato ficamos deitados lado a lado, olhando um o outro, pensando talvez em montes de coisas, que nenhum de nós dizia, mas mesmo assim havia algo que não podia deixar de perguntar.
- Porque fizes-te isto? Se ontem fugiste assim de mim. – disse eu, deveras impressionado.
- Tinha de o fazer antes de…
Não conseguiu acabar, pois fomos interrompidos por um ruído, a porta de entrada… Tínhamos esquecido as horas, presumivelmente seria minha mãe. Kate levantou-se agitada dizendo:
- Que fazemos agora?
- Não te preocupes, veste-te rápido eu trato disto – disse eu mostrando confiança.
Enquanto esta se vestia, olhei novamente seu corpo, tão completo, tão sublime, demasiado perfeito para arquitetar que o tive em minhas mãos, carne com carne, amor com amor. Enquanto a observava, ouve algo em si que me estimulou atenção, o seu braço, o seu pulso, a tatuagem que esta tinha, a mesma, que a outra rapariga, a rapariga morta! Senti um calafrio invadir-me todo o corpo, pensei que pudesse ser coincidência, talvez fosse. Mas mesmo assim perguntei:
- Essa tatuagem… Quando a fizeste? – disse meio nervoso.
- Porque? A tua mãe lá em baixo e tu preocupado com a tatuagem? – disse esta ainda mais nervosa.
Ajudei-a a sair sem ser vista por minha mãe. Subi de seguida para o meu quarto, invadido com o pensamento de aquela tatuagem ter algo a ver com o enforcamento da outra rapariga, pois achava ser coincidência a mais, estas terem uma tatuagem exatamente no mesmo sítio e exatamente igual. Adormeci pouco depois. Com a manhã veio a obrigação de ir a mais uma aula de matemática, dirigi-me para a escola, e à medida que me aproximava, conseguia ouvir o soar das sirenes, a polícia estava à porta. Mais um enforcamento, mais uma rapariga, mais uma tatuagem exatamente igual. Agora sim, meu corpo tremia de medo, lembrei-me de Kate disser, que “precisava de fazer sexo comigo antes de…”, de o facto desta saber do suicídio, e também de como ficou nervosa quando lhe falei disso, e sobretudo quando falei da tatuagem. Tudo fazia sentido. Saí rapidamente do local, a fim de tentar encontrar Kate, antes que fosse tarde demais.

♣ Capítulo 4
Dei voltas ao espaço envolvente à escola, na expectativa de descobrir algo que me conduzisse a Kate. Tinha a absoluta noção que procurá-la seria como pretender encontrar uma agulha num imenso palheiro, mas a afecção, o medo, o desejo de a encontrar era mais forte que qualquer outra coisa. Sabia que somente eu possuía conhecimento daquela tatuagem, que apenas eu tinha compreendido a ligação desta com os suicídios e que apenas eu a poderia salvar. Isso apesar das lágrimas que conquistavam meus olhos, apesar de meu corpo estar de rastos, bem como minha cabeça, era isso que me fazia insistir, nunca considerando a possibilidade de desistir.
Não consegui ir para casa, sabia que meus pais iriam ficar inquietados, mas naquele instante, eu estava mais preocupado. Dirigi-me então ao local do primeiro enforcamento, onde acabei por adormecer, sozinho numa pequena divisão. Acordei, assustado com curtos ruídos, que pareciam vir da divisão principal, não fazia a mínima ideia do que pudesse ser, sobretudo àquela hora, mas pareceu-me ouvir um som semelhante a passos. Espreitei, por entre a porta inexistente, procurando não ser visto, mas ver. Vi Kate, afeiçoando com velas algo que parecia ser um círculo. Vi a sua convicção em as ascender e amoldar de uma configuração muito cuidada. Vi também esta posicionar uma cadeira e passar sua mão suave, numa grossa corda, nomeadamente áspera. De seguida abriu um livro, recitando dele palavras que não compreendi, assinalando ao mesmo tempo as paredes, com símbolos estranhos que sinceramente me arrepiavam. Concluída a leitura subiu a cadeira, e colocou a corda no seu pescoço pronta para acabar com a sua vida. Foi aí, era altura de actuar, altura de provar que o que faria era errado, e evitar o pior, que era perder a pessoa que amava.
Invadi o compartimento onde esta se encontrava, deixando nesta um sentimento de raiva, com tendência a aumentar.
- Que fazes aqui? Como sabias que aqui estava? Saí por favor – disse esta chorando.
- Não saio sem ti… Se vim aqui foi com o intuito de te encontrar, e evitar o que estás prestes a fazer, que é acabar com a tua vida – disse eu evitando as lágrimas que se queriam libertar.
- Se o faço é porque quero não há nada que possas fazer – disse esta dando um pequeno paço na cadeira.
- Tem calma, apenas quero que me oiças, por favor.
- Não tens muito tempo, aliás não tenho muito tempo – disse esta nervosa.
- Eu digo na mesma e prometo ser rápido.
Segui na direcção a uma cadeira, coloquei-a perto dela, peguei uma corda e pendurei-a colocando-a á volta do meu pescoço e de seguida subi para a cadeira.
- Que pensas que estás a fazer? – disse esta ainda mais nervosa.
- Eu, se o fizeres vou contigo, vamos os dois.
- Porque?
- Porque? Tu és o melhor que já aconteceu na minha vida. Desde aquele dia em que te conheci, em que ambos partilha-mos o mesmo chão relvado da escola, percebi que eras a pessoa que eu amava. Nunca mais consegui tirar-te da minha cabeça, o teu sorriso, o teu olhar, o teu falar, tudo. Amo-te. Como podes deitar isso tudo abaixo? A nossa relação, o momento mais mágico que tive na minha vida. Nunca te tinha sentido tão perto. Lembras-te quanto tempo passou desde esse dia? Apenas um dia? Já esqueceste? Já esqueceste também o primeiro beijo, aquele no qual tu fugiste e me deixaste á toa? Por favor, não sei no que estás metida, mas sei que não tens de fazer isto. És tão nova, tens uma vida á tua espera, não precisa de ser comigo, se não me quiseres eu compreendo, mas por favor não estragues a tua vida. Prefiro perder-te para outro rapaz do que perder-te para sempre. Não consigo ser mais sincero que isto. E já me decidi, se o fizeres eu também o faço.
Completo meu discurso, Kate, retira a corda de seu pescoço e dirige-se para o chão onde se deita a chorar, apresei-me então na sua direcção.
- Desculpa, eu pensei… – disse esta chorando.
- Não precisas de dizer nada, estás bem agora, estás aqui comigo, nada te vai acontecer. Vamos embora daqui.
- Ok.
Dirigi-me á saída com Kate em meus braços. Ao passar a porta de saída, parei, tirei Kate dos meus braços e voltei a entrar na casa.
- Que vais fazer? – disse esta preocupada.
- Vou-me certificar que nada disto volta a acontecer.
Dirigi-me a um compartimento da sala, e retirei uma bilha de gasolina, que eu e meus colegas guardava-mos geralmente para as motas. Apressei-me a espalha-la pelo espaço e de seguida com uma vela, coloquei o edifício a arder.
É o que me recordo desse dia. Agora Kate encontra-se longe de mim, durante mais dois anos assim o será, afastados por mais de 1000 quilómetros. Ela estava bem, mas sua mãe preferiu leva-la a uma psicóloga, nos Estados Unidos. Apesar de não falar com ela há mais de um ano, e ainda faltarem dois para o seu regresso, não estou triste. Tive pena talvez, de não ter ficado com nenhum contacto. Mas depois daquela noite, depois de a conseguir fazer mudar de ideias, sei que por mais longe que esteja, sempre me irá amar, e não se irá esquecer de mim. Por isso agora apenas me resta esperar que esta volte, para finalmente podermos ser felizes. Se esta me tiver esquecido, uma coisa é certa, eu nunca a esquecerei.













