Conto: Relação Indecente
RELAÇÃO INDECENTE

♥ Capítulo 1
Um ano tinha envelhecido. Novamente se deslocava meu corpo indistinto, para uma escola negra, para mim radicalmente sem cor. Para muitos o lugar ideal para a sobrevivência e conservação da minha espécie. Mas este ser humano e não animal ou robotizado não partilhava do mesmo parecer. Preferia estar em casa. Preferia estar submersa em bom whisky e sentir-me asfixiada em fumo, com as minhas amigas, que hoje motivam a saudade. Como habitualmente, os meus ouvidos encontravam-se cerrados em música a um volume capaz de deixar qualquer coruja surda.
Nunca fui apologista de guardar as coisas para mim própria, razão pela qual a minha música é repartida com todos os que me envolvem. Não tinha qualquer pressa, mas naquele instante movia-me rapidamente, como se a música fosse o doping que apressa o coração e as pernas a um ritmo proporcional. Entrei na escola acelerada demais, e acabei por colidir violentamente, com um rapaz no corredor. Caí e este ajudou-me prontamente. Não retribuí, porque nunca o fiz e muito menos me dignava a descer tão baixo. Ao invés, chamei-lhe mil nomes, que acabaram por não trespassar da minha cabeça. Perdi 5 segundos do meu tempo a pensar na situação e de seguida segui para a sala de aula. A minha vontade era de desaparecer, mas já que a minha vida tinha de ser esta, decidi ponderar e concluí que não deveria gastar as poucas faltas disponíveis logo no primeiro dia. As minhas amigas já se encontravam sentadas e eu apesar de atrasada, sorri ao perceber que o professor ainda o estava mais que eu. Chegou minutos depois e para o meu espanto era a mesma pessoa com quem tinha chocado há minutos no corredor.
- Desculpem o atraso, sou o vosso novo professor e acabei por ter um contra-tempo no corredor – disse este sorrindo na minha direção.
Um contra-tempo que eu chamaria de Alicia. ~
A aula assemelhou-se ao mesmo de sempre, uma grande e gorda seca. Mas por alguma razão, hoje a atenção não se encontrava de baixa, porque havia ouvido tudo o que o professor tinha dito. Não conseguia perceber o que se passava na minha cabeça, o porque de este não a abandonar. Percebi que tinha de falar com alguém, era expansiva e não conseguia reter tudo no meu interior. A aula terminou, decidi assim dar uma escapadela com uma amiga minha, afim de lhe contar o sucedido. Esta era a nossa única aula do dia, por isso não existiam mais motivos de ficarmos presas aquele espaço. Fomos ambas para a minha casa. A minha mãe estava no trabalho, daqueles que o corpo faz a maior parte do dinheiro. O meu pai descansava, um descanso eterno que há muito a vida lhe ofereceu.
Descemos à cave, o nosso pequeno refúgio, o meu pequeno mundo, que permitia a muito pouca gente a chave de acesso. As paredes estavam completamente cobertas de posters, como se de papel de parece se tratassem. No canto existiam dois sofás pretos e uma pequena televisão que fazia companhia a uma velha aparelhagem. No fundo possuía tudo o que necessitava nos momentos em que procurava fugir à realidade. A minha amiga Jessy estava mais que impaciente para saber o porque de toda a minha agitação. Acendi um cigarro e abri uma cerveja, precisava de me acalmar e era exatamente isso que me acalmava, ou que neste caso eu julgava me acalmar. Comecei por explicar o sucedido no corredor, bem como todos os detalhes importantes e essenciais para uma possível compreensão. A Jessy ficou surpresa e afirmou:
- Eu conheço-te bem o suficiente para garantir que lhe estás a dar importância a mais. Isso só pode significar que estás completamente apanhada por ele.
Fiquei sem reação, não sabia o que dizer, apenas poderia garantir que nunca antes na minha vida havia estado apaixonada. Sempre fui uma rapariga com uma paixão imensa nas coleções, influências que obtive com a minha mãe que achava ser impossível manter um homem por mais de uma noite.
- Não pode ser possível, talvez esteja a dar importância a mais a este caso – disse eu tentando desviar o assunto.
- Não te preocupes, fica o nosso segredo. Não vou contar a ninguém e se realmente o desejas, mostra-lhe o teu melhor lado.
Não sabia o que pensar e por momentos pedi para ficar só. Precisava de reorganizar todas as ideias na minha cabeça, como se de uma biblioteca se tratasse.

♥ Capítulo 2
Como já esperava, não foi muito o tempo que aguentei sozinha. Decidi enviar uma mensagem à Jessy, decidi que já podia voltar e que estava melhor na sua companhia. Esperei por mais de uma hora, tempo que consegui contar e em que o sono não me tinha vencido. Acordei com o tocar da campainha no piso superior, era a Jessy que me esperava. Abri a porta e descemos novamente à cave. Precisava de esquecer e investir todo o meu orçamento mental na diversão. Pensei então eu fazer um grande “libertador”, nome que decidi lhe dar pelo facto de me libertar e me conduzir a fazer coisas que nunca tive coragem de fazer. Sempre gostei disso, razão pela qual gostava de fumar.
Demorei mais que o habitual, as minhas mãos tremiam como nunca antes e o meu coração parecia querer irromper do meu interior. Ambas fumamos daquele “libertador”, que confesso me pareceu demasiado exagerado de dose, razão pela qual me sentia tonta e um quanto desorientada. Permanecemos ambas deitadas no sofá preto, proferindo piadas, das quais riamos sem qualquer razão. Entretanto num ato ingénuo Jessy começa a tocar de leve o meu corpo. Recuei e perguntei surpreendida.
- Que raio estás a fazer?
- Estava curiosa e estava a tentar dar-te um pouco de afeto, está visto que neste momento careces dele – disse esta com ar provocador.
Não respondi. Desconhecia se aquilo era a sua vontade própria ou um mero efeito do “libertador”. Mas naquele momento não liguei e deixei-a conduzir-me até aquele novo mundo que esta queria presenciar. Ela tocava-me como nunca ninguém o tinha feito antes. Parecia conhecer cada pedaço do meu corpo, todas as suas pequenas curvas e oscilações. Sabia também a melhor forma de os tocar. Pensei em parar, mas o pensamento não conseguiu vencer a vontade do corpo e então continuei. Esta despiu-me e ficamos ambas despidas, a tocar-nos mutuamente e a descobrir um mundo novo, completo e recheado de novos sabores.

Jessy ficou para jantar. Como a minha mãe ainda não estava em casa decidimos comer uma simples pizza acompanhada de mais uma cerveja. Decidi também que a Jessy ficaria a dormir em minha casa, visto que no dia seguinte apenas tínhamos aulas de tarde. Subimos até ao meu quarto que se encontrava no segundo piso, ao lado do quarto da minha mãe, que como habitualmente acontecia ainda não se encontrava presente. Não posso afirmar que me fazia feliz o estilo de vida que a minha mãe havia adotado, mas o tempo levou a que me habitua-se e não podia recriminar quem sempre me deu tudo e garantiu que todas as minhas despesas fossem pagas.
Ficamos ambas no quarto a ver vídeos assustadores de relatos paranormais, uma das nossa atividades preferidas. Nenhuma de nós tinha ousado tocar no assunto que nos envolvia a ambas nuas no sofá. Embora não falasse gostava de saber e responder à pergunta que me atormentava “Teria sido tão bom para ela como foi para mim?”. Decidi falar e quebrar todo aquele silêncio que nos envolvia, mas o barulho da porta de entrada antecipou-se e dissipou a minha tentativa. Sabia que era a minha mãe e pelos passos percebi que vinha acompanhada, tinha chegado a hora em que me devia deitar e fingir de morta. Segundo ela qualquer barulho poderia afastar o cliente e isso para ela era igual a não receber qualquer cêntimo. Não era frequente a minha mãe trazer alguém para a nossa casa e nunca tinha acontecido tendo eu companhia, embora nunca me tenha envergonhado disso. Para acrescentar a Jessy também sabia da sua “profissão”.
Deitamos-nos ambas ouvindo murmúrios e gemidos vindos do quarto ao lado. Os gemidos e aquela sensação de prazer de certa forma veio aumentar ainda mais o nosso constrangimento, mas pouco tempo foi necessário para que ambas tivéssemos adormecido. Quando acordámos a minha mãe já tinha saído, como não tínhamos aulas nessa manhã não havia nenhuma pressa. Mudamos de roupa junta, e sinto que cada uma olhou o corpo da outra de forma diferente, conseguia de certa forma senti-lo. Acabadas de vestir senti ser o momento certo para retomar o assunto que ontem ficou suspenso.
- Jessy acho que precisamos de falar.
Jessy não proferiu uma palavra, fingiu ignorar-me e logo de saída de uma forma surpreendente beijou-me. Fiquei sem reação, mas retribuí da mesma forma. Nunca tinha tido uma certeza tão forte como aquela que me aproximava de ti.
Sempre fui diferente em tanta coisa, mas nunca me recriminei por isso, porque havia de ser recriminada pelos outros? Se tudo o que faço nada mais é do que lutar pela minha felicidade? Quando o meu pai era vivo, dizia sempre “Busca a tua felicidade acima de tudo” e naquele momento enquanto a beijava era isso que fazia. Acabados os carinhos, tomamos o pequeno almoço e seguimos juntas para a escola. Novamente encontrava aquele professor desastrado que um dia decidiu embater na minha vida. A aula passou relativamente rápido, mas o professor pediu que aguardássemos pelo final da aula para poder falar connosco em particular.

♥ Capítulo 3
O professor esperou que todos abandonassem aquela pequena sala e só depois nos falou.
- Estou preocupado com o vosso aproveitamento nas aulas, talvez existam muitas dúvidas nas vossas cabeças. Eu estou disponível para vos dar umas explicações. O que me dizem?
Vi na cara de Jessy que não queria aceitar, mas eu pelo contrário achei ser o plano perfeito para a minha vingança e decidi não haver qualquer problema e aceitar a proposta do professor. Ele tinha apenas 25 anos, não parecia de todo ser má pessoa, o que poderia correr mal?
- Existe apenas um pequeno problema, as explicações não podem ser dadas aqui na escola, porque teria de requerer como atividade extra, mas se quiserem seguir-me até à minha casa, não é muito longe daqui.
Aceitamos e pela primeira vez na vida sentia-me empenhada para ter uma explicação. Andamos cerca de meia hora, e pelos vistos o perto era apenas uma expressão, porque as minhas pernas já denotavam um certo cansaço. A casa encontrava-se longe de tudo e tinha um aspeto semelhante a um velho palheiro, não parecia de todo uma casa de habitação. O interior não diferia muito, mas como o professor era novo na cidade achamos normal e não fizemos grande caso. A explicação foi algo de fenomenal, ficamos a conhecer melhor o professor e conseguimos ver que as suas explicações se resumem a rigorosamente nada. Falamos por cerca de 5 minutos e o resto do tempo foi ocupado com um interrogatório onde este parecia querer saber cada detalhe da nossa vida.
Este ritmo repartido entre escola e explicações prolongou-se por vários dias e com o tempo fomos mudando a nossa opinião relativamente ao professor, bem como cada vez mais o achava mais atraente. Certo dia a nossa explicação e suposta conversa recaiu sobre sexo, sentia nele que gostava de falar no assunto, sobretudo quando se encontrava com duas jovens estudantes bastante mais novas. O que começou numa conversa acabou numa relação a três, pura loucura de uma jovem que não sabia nada do que era a vida. Uma jovem que não se importava com as consequências dos seus atos mas apenas com a sua concretização. No meio de tanta loucura não houve tempo para perguntas, muito menos para a devida proteção.
Vários dias passaram dado esse acontecimento e vários acontecimentos se sucederam no mesmo quarto. Confesso que com o tempo o prazer foi diminuindo, enquanto que o de Jessy aumentava e aumentava. Muitas vezes ia sozinha ter com ele, mesmo sabendo que eu tinha conhecimento disso. Um dia, numa semana das nossas férias, lembro-me de ela dizer algo que me chocou completamente, disse que se sentia tonta, que tinha vómitos e tudo apontava para uma gravidez que com o tempo e os devidos testes se veio a confirmar. Também havia certeza de quem era o pai e esse facto deixava-a em pânico completo porque não sabia como este iria reagir. Tentei acalma-la mesmo estando numa pilha de nervos, ver a pessoa que amo grávida de outra pessoa que não devia ter passado de uma simples aventura era como agulhas que se cravavam no meu coração.
Aconselhei-a a ir sozinha ter com ele e contar-lhe o sucedido. Foi isso que ela fez e eu com toda a impaciência a apoderar-se de mim decidi segui-la e espreitar a conversa de ambos. Fiz algo que nunca havia ter feito. Quando me aproximei de sua casa, conseguia ouvir gritos que reconhecia serem de Jessy. Aproximei-me e espreitei por uma janela entreaberta. Ele estava a agarra-la no pescoço com demasiada força para ser apenas um carinho, com demasiada força para ser um simples abraço. Ele estava a sufoca-la. Fiquei branca, sem forças e sobretudo sem reação. Pelo vidro conseguia ver a cara de horror de Jessy, o modo como ela se desvanecia, rompida pela força de tão grandes braços. Ao ver aquilo, ao ver Jessy cair no chão morta, senti-me fraca, por não poder ter feito nada. Tinha vindo demasiado tarde.
Apenas pensava no que tinha feito. Porque razão a tinha deixado vir sozinha? Fui para casa, sem cabeça suficiente para pensar no que iria fazer e no que deveria ser feito. Estava com medo, triste, com nojo de mim própria por ter mantido uma relação com alguém sem coração Considero-me parva, toda a minha vida, fazendo o que sempre quiz sem nunca me importar de nada, apenas de uma coisa, a Jessy, a menina que amo e que agora acabei por perder.
Esperei toda a noite acordada pelo dia seguinte, já tinha decidido, que iria fazer justiça pelas minhas próprias mãos. Peguei a antiga arma de meu pai que com o tempo ganhou pó e teias de aranha. Tinha balas, tinha coragem, tinha revolta dentro de mim. Quando chegou o novo dia entrei na escola, com a arma na mochila, entrei na sala e assim que vi aquele traste entrar, disse “Isto é por tudo o que fizeste à minha amiga canalha” e disparei. O professor foi morto e eu por ter 18 anos fui condenada à prisão.
Agora estou a terminar a minha pena, fui condenada por um homicídio e pela posse de drogas. Atualmente tenho 27 anos, falta-me um ano para me livrar desta cela. Se me perguntarem se aprendi algo, digo que aprendi demais. Aprendi que sempre fui algo que no fundo não era. Aprendi que as minhas atitudes não me levaram a nada para além da prisão. Aprendi que se a minha mãe era assim foi porque não ajudei. Aprendi também que o meu pai morreu cedo demais para me ajudar. Aprendi que temos de proteger o que mais gostamos, porque é sempre a primeira coisa que perdemos. E agora, fora da cadeia, só desejo o que todas as raparigas como eu desejam, poder voltar a nascer e fazer a minha vida de um modo completamente diferente. Não sinto falta de nada desse tempo, nada para além da minha amiga Jessy a pessoa que mais amava nesta vida e que acabei por perder graças à minha imaturidade.













