Conto: Liberdade do Sentimento

Estava escuro naquele bosque. Encontrava-me sozinho, embora parecesse que estava rodeado de movimento. Não eram pessoas, mas sim criaturas. Criaturas da noite, procurando a sua presa. Procurando caçar a sua presa. Criaturas sem coração que me perseguiam a cada passa no desenrolar da noite.
Estava exausto, sentia não ter mais forças para fugir de quem tanto queria me apanhar. Sabia que não podia fugir mais. Sabia que me tinha de preparar para o confronto e esperar sair vitorioso. Parei e esperei. Meu espanto explodiu ao saber que quem me perseguia era uma bela rapariga. Sem nada de assustador ou estranho.
- Olá. Não tenhas medo. Sou a guardadora desta floresta.
- O que queres de mim? – perguntei surpreso.
- Não te posso deixar sair deste meu bosque.
- Não podes? Preciso de sair deste lugar – disse assustado.
- Basta que me mostres sentimento para poderes ser livre – disse a linda rapariga.
- Mostrar sentimento? Mas como?
Não obtive resposta, a linda rapariga desapareceu tão rapidamente como no seu aparecimento. Apenas permaneceu o ar sombrio, agora aliado a uma grande dúvida. Como poderia mostrar sentimento num bosque repleto de monstros?
Continuei trilho acima tentando não dar atenção aos murmúrios das árvores e ao chiar dos animais, que tal como eu, pareciam não ter forças, sequer para se manterem de pé. Exausto e sem forças, deixei cair meu corpo sobre um monte de folhas secas, já sem vida. Adormeci por momentos. Acordei um pouco mais tarde incomodado por uma luz forte, que parecia iluminar toda a escuridão. Decidi investigar e por mais difícil que fosse ir ao encontro daquela luz.
Descobri que aquela luz era provocada por uma fada que se encontrava debaixo de uma velha árvore. Era lindíssima, tinha um belo cabelo longo escuro e uma figura muito esbelta. Mas algo a incomodava, parecia estar assustada, bem mais do que eu próprio. Decidi avançar mais perto e falar com a bela rapariga.
- Olá, estás perdida?
- Deixa-me em paz, por favor, não me faças mal. Eu prometo voltar para casa, apenas não sei como. Perdi o meu caminho – disse a fada muito assustada.
- Não te vou fazer mal, não sou um deles e também me encontro sozinho e tal como tu perdido.
Nesta altura a fada esboçou um sorriso lindíssimo, que desde logo me prendeu. Tinha vontade e expectativa que o esboça-se novamente.
- Posso saber o teu nome?
- Eu chamo-me Catarina. Ana Catarina.
- Bonito nome, mas sobretudo bonito sorriso.
- É muito gentil da tua parte, mas acho que deveríamos pensar em como sair daqui.
- Tens razão, vamos colocar-nos a caminho, eu protejo-te não te preocupes.
Fomos juntos, ambos assustados, trocando olhares e sorrisos que mostravam mais do que apenas medo. Subitamente a chuva começou a fazer-se sentir. Foi aí que corremos afim de encontrar-mos um abrigo, mas essa procura apenas nos guiou a mais sarilhos.
A estrada tinha terminado, mas Ana, não tinha percebido, e acabou por segui-la, até cair. Vendo-a cair, tive tempo de esticar a minha mão e agarra-la. Embora esta tenha pedido várias vezes que a largasse eu não o consegui fazer. Usei toda a minha força e com esforço consegui traze-la para um local seguro. Ficamos os dois durante vários minutos, olhando um o outro, até que ela disse.
- Obrigado, salvaste-me a vida.
- Obrigado eu, fizeste mais que isso, deste-me a perceber o verdadeiro significado da vida.
- Sério? E qual é?
Não proferi uma palavra, simplesmente como a chuva que cai sem permissão, também eu a beijei sem permissão. Enquanto a beijava, seus olhos piscavam, seu corpo tremia, e o mundo mudava. A chuva parou, o dia nasceu trazendo com ele o verde e apagando todo o negro do bosque. Tinha finalmente provado sentimento. Confesso que era capaz de passar o resto dos meus dias naquele bosque, mas apenas com aquela fada a meu lado. Mas não foi preciso. Prometi guardar sempre este segredo e desde esse dia vivo com uma fada no coração.













