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A vida que temos

A nossa vida é um acumular de escolhas e decisões. Uma infindável viagem pelo mundo da auto-ponderação e pela não ponderação completa. A nossa vida é um acumular de experiências que nos transformam na pessoa que somos e mostramos ao mundo. Mas é também criadora de conflitos e obstáculo que dia após dia nos faz medir a nossa força como ser humano.
A minha vida é o que eu quero que seja, mas nem sempre da forma como o queria. A minha vida é a escrita. São sorrisos nos rostos de cada um dos meus leitores e de cada pessoa que se identifica numa das minhas palavras. Quase choro sabendo que algumas se identificam por completo, como se habitassem o meu corpo e partilhassem da minha mente.
Por vezes o meu mundo parece pequeno, embora englobe muitas pessoas. Por vezes constato que as pessoas é que formam o vazio por optarem pela via do silêncio. Sempre renunciei ao silêncio, porque me provoca arrepios de morte. Detesto a solidão e prefiro ser rotulado de “charlatão” do que não ter ninguém para falar.
A minha vida é formada com um bocado de cada um de vocês, eu vivo em cada uma das tuas palavras, mas tu és apenas cego e não vês.
Escadas da vida

Por vezes sinto vontade de gritar, chorar e amar, sinto em pleno o que a vida me dá, mas não consigo aproveitar. Por vezes não damos valor ao pouco que nos devia preencher. Por vezes desconhecemos o que esse pouco é capaz de fazer. Somos ambiciosos de natureza, uma natureza que nos faz querer ainda mais, valorizar ainda menos, pois somos todos iguais.
Não é fácil nos dar valor ao valor que cada um de nós tem. Somos cem mas pensamos não ter valor e ser ninguém. Falta a força para lutar o poder para acreditar, que temos tudo na mão para qualquer coisa que queiramos mudar. Acreditar em nós é necessário é estritamente e plenamente parte do inventário e nunca pode existir a palavra desistir no meu dicionário.
É impossível ter, tudo ao mesmo tempo, é mais importante viver para consumir em nós o alimento. A vida é só uma em pleno a viver no nosso coração, muitas vezes sonhamos alto de mais para cairmos na desilusão. Voamos sem asas e esperamos conseguir atingir uma dimensão maior no amor, mas no final a desilusão apenas causa em nós dor. Somos o reflexo da tristeza, que vive no nosso coração, somos o poder da mudança mas a carência em evolução.
História de um sonho (Parte 2 de 2)
Por várias vezes folheava os meus cadernos como se de um livro se tratasse. Naquele momento era apenas um mero leitor que ambicionava tornar-se grande, com o que o próprio havia escrito. Imaginava o dia em que cada um dos meus simples cadernos se tornavam num livro de estante, não simples, mas sim complexo e originalmente meu. Sempre tive medo de sonhar porque tinha medo que a vida me traísse nas suas linhas e me deixasse esquecido no final de uma página, onde ninguém iria ler. Existem mais talentos neste mundo que pessoas. Existem menos oportunidades que talentos e consequentemente muitos são esquecidos. A vida ensinou-me a desejar e sonhar apenas enquanto durmo. Por várias vezes quis sonhar ser o escritor que as pessoas procuram. Que trás sorrisos. Que proporciona visitas ao céu de forma gratuita. Que espalha conhecimento e mais importante que tudo – que faz sonhar, sorrir e viver.
Por um dia na minha vida sonhei mais do que o sonho, lutei mais do que a luta, e escrevi numa bela prosa o momento que hoje relembro.
“Em tempos conheci, o que presentemente somente em pensamento reside. Aonde apelo em instantes em que a saudade briga, pela sua afirmação. Uma pessoa de tal maneira grandiosa que se tornou numa entidade outrora viva, que hoje me faz viver. De idade avançada e de conhecimento aguçado, insistia em comentar o meu trabalho de forma única. Era singular e excepcional o reconhecimento que lhe atribuía, como também era único o significado que este detinha na mesma. Mas tal belo ser, padecia de uma doença, denominada de cancro, uma designação demasiado escura para ser escrita numa folha branca e virgem. Revivo o seu desejo de querer ao som de minhas palavras. O seu desejo de poder prolongar as linhas da vida, com intuito de ficar presente nela e na companhia das palavras que escrevo. Relembro também como as minhas palavras a conduziam para um mundo que já havia vivido e que no presente, graças a mim testemunhava. O seu desejo materializou-se e a sua partida surgiu sem aviso. Desta mantenho presentes as palavras e o desejo que estas possam atingir um grande número de pessoas, como ocorreu na sua vida. Da sua morte guardo a força, porque ao ser relembrada nunca estará realmente morta, apenas tirou férias da vida”.
O sonho nasceu em suas palavras e na constatação de que realmente sou capaz. Não existe um motivo para sonhar, apenas reconhecemos que efectivamente o fazemos. A vida é constituída por pequenos sonhos que na sua soma formam uma grande realidade.
Por momentos deixei repousar o caderno. Tingi demasiadas páginas. A caneta cessou de escrever. A minha cabeça insistiu em não pensar. Envolto em meu cansaço deixei o corpo ceder à sua vontade. Adormeci. Desliguei do sonho pela qual a minha vida se estrutura e perdi-me efectivamente a sonhar. No caderno guardei as seguintes palavras.
“O mundo incumbiu-me de uma missão. Admirei o céu. Vi o azul tocar-me, numa chuva infinita de interrogações. Pensei ser possuidor de algo concreto. Pensei que sonhando controlaria o sonho. Pensei que o concretizava. Apercebi-me que na verdade sonhava… O sonho comanda a vida. Será possível viver numa dimensão paralela? Sonhar. Apenas sonhar e com este sonho viver uma vida de harmonia. Existe algo que me consome o interior e que exteriormente se expressa em poesia. Nunca me contentei com dissertações de fachadas e tretas. Cresci rodeado de palavras que sempre formei com letras.
Queria voar com um pedaço.
Queria marcar o meu passo.
Queria amarrar-te com laço.
Queria riscar a palavra fracasso.
Queria triunfar.
Semear e colher
Quero-me entregar.
Com esta arte morrer.
Procurei sonhos, tentei
compreender a vida e errei.
Venci, lutei e perdi.
Fiz tudo para provar ao mundo
que gosto, do que vivi.
Mas nada prova
e o meu ser comprova,
que venci, lutei e perdi.
Guardamos sonhos e canções. Guardamos memórias e lições. Guardamos versos, guardamos quadras. Há quem guarde segredos. Há quem revele fachadas. Existe quem vença. Quem perde e volta a tentar. Existe os que se aventuram e os que não regressam desse mar. Repartimos sensações e guardamos o que o coração tende em esconder. Por fim morremos em lágrimas, o que o coração não deixa ver. Pintamos num a4 expressivo as linhas que compõem toda uma vida. Por fim, riscamos na pele e rasuramos os erros até desvendar e provocar ferida. Abrimos portas e guardamos a chave para no futuro podermos voltar. Guardamos mágoa, rancor, que nos prende a um lugar. Guardamos sentimentos, silenciamos e obrigamos a não serem. Vemos e matamos coisas que julgamos, serem boas demais para um dia se terem.
Em sete chaves enferrujadas, guardo histórias nunca antes contadas. Vontades não reveladas, e certezas que nunca serão verificadas. Sonhos de outrora que agora deixaram de ser sonhados. Guardado em sete chaves em baús nunca encontrados. Tesouros que nunca terei, um sucesso jamais alcançado. Guardo um sonho desmembrado, de uma vida perdida no seu fado. Um suspiro profundo. Um desabafo mais que extenso. Entre tristeza e alegria, oscila o meu mundo tenso. Entre vitória e derrota. Entre ter ou ver partir. Entre vontade de triunfar e a vontade de desistir…
Um sonho por mais que seja extenso, não nos impede de o atingir. Maior será a sua extensão, se algum dia ponderarmos desistir. Não existem sonhos difíceis de alcançar. Existem apenas pessoas, que se empenham pouco para os realizar.”
História de um sonho (Parte 1 de 2)

Todos encerraram em si próprios um sonho. O sonho é indispensável à vida, na medida em que nos incumbe de alcançar um pretexto para a sua existência. Mas este sonho, não sobrevive mediante a temporária morte do nosso ser. O sonho forma e abraça a linha da vida, de olhos cravados para o dia, construindo com suas pedras o caminho a pisar. Segue-o como equilibrista. Partilho um amor narciso pelo sonho que me lidera e ofusca. O nascimento é a abertura da contagem decrescente para o paralelo com a morte. O início do fim do sonho. Vivemos para sonhar e eu sigo vigilante, no meu sonho de ser poeta. Escrevi outrora algo que soava como o seguinte:
“Sonhei. Peguei nos flocos de sonho, distintos no Inverno da minha vida e pensei. Em cada um guardo um segredo que não contei. Guardo um beijo que não dei. Guardo um sonho que não concretizei. Por isso neva, no Inverno da minha vida, nevam sonhos na neve fria e despida. Por isso permaneço, permaneço a ver nevar, por vezes paro e abdico, abdico de sonhar”.
Cada um de nós guarda um sonho, e se o guarda carrega-lhe importância. Eu costumo por várias vezes, viver num mundo mágico que apelido de fantasia. Nesse mundo, assim que fecho os olhos para a realidade, torno-me poeta. Na realidade em que vivo, apenas escrevo. Na realidade somente sou o que da fantasia não trespassa. A realidade é para mim a consciência da nossa passagem pela vida, a constatação de que estamos efectivamente vivos. A vida não é mais do que um resguardo mental, que edificamos mediante os tijolos e cimento disponível. O tijolo é todo o artifício físico necessário a uma boa e forte estruturação da vida humana e do sonho. O cimento é a força necessária para arrastar esses sonhos a bom rumo. Como o rio teima em cair no mar, o meu sonho despenha-se na meta.
O sol dourava o horizonte com tanto vigor, que parecia pairar no céu pequenas barras de ouro. Olhando pela janela, tudo parecia ganhar vigor, com a esplêndida cor, que o sol dourava. Eu perdido em pensamentos tingia o meu caderno com versos de esquecimento. Ponderei que tudo o que escrevera ninguém iria ler, tudo aquilo era efémero demais e acabaria por desaparecer. Mesmo assim escrevia, sobre um sonho que devorava a minha existência. Mesmo assim escrevia em grande o que em pequeno tinha de experiência. Continha um sonho.

Existe quem sonhe em grande, mas lute em pequeno, pela concretização do que pensa ser impossível. Pobres que desconhecem que a possibilidade apenas é impossível mediante duas letras. Nada é impossível a partir do momento em que nos comprometemos à sua concretização. A impossibilidade apenas reside na mente de quem a engorda. Eu não alimento o impossível, porque o alimento só lhe dá eficácia na sua afirmação e força para destruir o que delimitamos como sonho. O que espaça a impossibilidade da possibilidade são apenas duas letras que simbolizam respectivamente, coragem e medo.
Todos sonham. Mas sonhamos de forma insuficiente para recrutar coragem para transformar esse mesmo sonho em realidade. Falta coragem para provocar a fantasia dentro de cada ser e arrebata-la para o exterior com uma porção de realismo. A cascata da coragem não ascende no momento em que o sangue bombeia o cérebro e nos faz sonhar em grande. A cascata da coragem, apenas corre, sente e por fim morre, na pele de quem não a tem. E assim se desvanece o sonho.
Todos sonham. Mas o medo que designam de fracasso, cega-os ao ponto, de desconhecerem a proporção de sucesso. Entram assim numa teia de deduções pessimistas e de sorrisos minguados, transformam o sol negro e obscurecem o sonho. Pudesse ao menos a coragem pegar em seus braços o medo e marcharem anexos no curso da luta. Pudessem ao menos estes dois se fundir e no final dessa luta conhecer o sucesso. Pudessem ainda existir como entidade viva e fazerem brotar uma alma morta que mora dentro de um indivíduo enclausurado nos seus medos.
Aprendi a mensurar meu sonho e a impingir limites que facultam um afastamento mímico do que apelido de decepção. Sofremos porque tencionamos. Sofremos pelo facto de alimentarmos uma reprodução magnificente que se traduz no produto diminuto que colhemos. Cessa o que outrora se assemelhava grandioso, perdura somente a desilusão do pequeno que obtemos. Mas o que seria a vida sem um sonho? Ou vários?
O segredo da inspiração

Por mais que na minha vida lutasse para ser alguém. Por mais que tingisse cadernos de uma tinta permanente que não pretendia ver borrada. Por mais que escrevesse, nunca o considerei inspiração. Não acredito no que denominam de inspiração. Não acredito tão-pouco na sua robustez “quase divina” de abranger o pequeno ser humano de tão grandes realizações. Embora admita que nem sempre foi assim.
Primitivamente, quando a escrita ainda era uma pequena flor no jardim da minha vida. Uma flor minúscula a carecer de muita água, mas impossibilitada de prosperar pelas sucessivas tempestades da inspiração. Antigamente acreditava ter presente em mim, essa inspiração que apenas me assolava em alguns dias. Antigamente apenas escrevia quando acreditava “estar inspirado” ou saciado desta água que conservava, aquela pequena flor viva. Mas há medida que o jardim crescia, este carecia de cor, este parecia ser fruto de um desejo de falsa inspiração. A partir do momento em que todos os dias me deslocava a molhar a minha pequena flor escrevendo, compreendi que a inspiração nada mais era, que um pretexto.

Sempre que não conseguia arranjar a água para esta pequena flor, aplicava a culpa na inspiração, proferindo que não a possuía. Mas sempre que desistia e via a flor murchar o que me carecia era talento e não inspiração. Desde que me desloco diariamente a este meu jardim, procurando multiplicar as flores e escrevendo sobre a sua beleza, percebi que não existe inspiração, mas talento. Do uso das palavras, aprendi a moderar ideias e a permitir que estas nunca se escapem no meu jardim, apenas cresçam, como as minhas flores. Encontrando-me com as palavras diariamente percebi que o que se expandia em mim não era nada mais que talento, aos quais muito intitulavam “Dom”. Não era nada mais do que o fruto de um trabalho contínuo, sem ter presente a desculpa de “falta de inspiração”.
Sempre que um navegador das palavras se recusar a exercer o seu ato de escrita alegando não ser possuidor de inspiração, este mente. Porque a falta de inspiração é uma desculpa para falta de talento ou incapacidade de executar o que nos fora pedido.
Não existe inspiração, mas sim motivos. Não aprovando o termo inspiração, mas para inspirar em vós a compreensão, pode-se ver os motivos como pequenas inspirações. Na nossa estrada de poeta, existem motivos que nos levam a pegar na caneta e a pintar o papel com os tons do coração. Existem motivos que nos levam a chorar ou rir no papel, mas não são mais do que motivos e não inspiração. Porque foram motivos que levaram o meu jardim a crescer e não a inspiração que teimava em causar a morte à minha flor. É importante e crucial uma interiorização de nós mesmos e procurarmos levar ao extremo cada sentimento de modo a poder-mos fazer com ele uma viagem em direção à escrita.

No meu percurso de poeta sempre tendi a morrer em sentimentos e a exagera-los a um estágio quase insuportável. Mas sempre foi inevitável. Sempre foi uma necessidade pela qual a minha escrita apelava e há qual não conseguia negar acesso. A escrita apela ao sentimento, e o meu sentimento era totalmente pertencente a esta vontade de escrever. Como meus sentimentos tendiam para a perfeição, também a minha escrita precisava o ser.
Acredito que cada ser, tem uma alma poeta.
Acredito no amor, sem o cúpido da seta.
Acredito que nunca consiga atingir a perfeição.
Mas também acredito que não me falte motivação.
O segredo da inspiração passa, por não recorrer à mesma. O seu segredo passa por não viver constantemente à sua procura, quando nunca sabemos se a temos. Não conseguimos definir ao certo o que difere de pessoa para pessoa, muito menos generalizar algo que é sentido singularmente por cada um de nós.
Inspiração, olha em meus olhos,
quero poder ver-te a alma.
Inspiração em mim aos molhos,
quero ser a tua calma.Quero ter o motivo,
a vontade de escrever.
De inspiração não preciso,
apenas caneta e viver.Há inspiração não apelo,
por motivos que já expliquei.
Tempestade do meu jardim,
causadora do erro, errei.Inspiração não preciso, apenas a escrita pela qual lutei,
aquela que me abraçou no seu reino e que fez de mim o rei.













