Prosa « Vigilante, o Poeta Vigilante

Archive for the ‘Prosa’ Category

Abril 19th, 2012

Palavras ao vento

ponte chuva carrosEscrevi palavras ao vento, que este fez questão de levar, escrevi palavras na calçada que a chuva, fez questão de apagar. Escrevi o que penso, porque não penso sem escrever, escrevi o que quero que o mundo possa ler. Escrevo por um amor à escrita, um amor que me consome e me alimenta, uma passagem de nada que em tudo me sustenta.

Mas as palavras que escrevi o vento levou… O vento pactuou com a chuva e nada ficou para além da mágoa em cada gota que o céu libertava. Escrevo mas o vento teima em levar todas as minhas palavras e apenas permanecer um vazio.

Lá fora a chuva escorre… Pergunto-me se as gotas que vejo cair podem conter as minhas palavras, as mesmas palavras que o vento levou, as mesmas palavras que me roubaram. Olho o céu na esperança de recuperar a força das palavras que larguei ao longo destes anos. Olho o céu na esperança de reaver os sorrisos que vi e vejo esmorecerem. Olho o céu na esperança que as pessoas da terra não esqueçam que ainda escrevo e que no fundo… Escrevo para elas…

Março 22nd, 2012

Comemorar a vida

comemorar a vidaPorque? Porque razão e sem noção nos invade a apatia. Porque razão, nos imunda de um sentimento de impossibilidade quando na verdade tudo é possível. Como fazes vida para nos oferecer tudo e de um momento para o outro nos retirares a perspicácia para perceber o que temos e a sorte que temos em o ter.  Como fazes?

Deveríamos comemorar a vida, mas parecemos tão ocupados com o que não temos que esquecemos de valorizar tudo o que nos pertence. Tudo o que lutámos por ter e tudo o que ainda se encontra ao nosso alcance. Temos todo um mundo e uma vida à nossa frente e à distância de um gesto. De uma ação e quem sabe de uma atitude.

Comemorar a vida é essencial como essencial é viver, como essencial é saber e como essencial é aprender. Viver por viver só se resume a uma passagem e querer sem ter é realidade e não miragem…

Março 4th, 2012

Labaredas de vontade

homem a passear o cãoPor entre palavras me encaixo e me afogo, à medida que escrevo. Por entre labaredas de vontade que me levam abaixo, num teste de fidelidade entre a minha escrita e o meu medo. Num amor escrito em pedra, que nem o vento é capaz de dissipar, numa paixão pela escrita que ninguém é capaz de matar. Por entre vontades partidas que o desejo consome, por entre palavras sentidas que pronunciam o meu nome. Mantenho-me atento, vigilante no meu mundo, com palavras de topo, num sentimento de fundo.

Com um objetivo cerrado que o tempo não entorpece, com uma vontade insaciável que ninguém esmorece. Continuo um caminho que não consigo traçar ao certo, por entre montanhas de palavras e rios de deserto. Continuo sempre em frente sem permitir uma paragem, porque a vida é só uma e só a vivemos de passagem.

Fevereiro 18th, 2012

No céu repouso

céu, estrelas

No céu repouso, quando o olho e admiro. Quando vou para além das suas nuvens e o toco como algo palpável. Adormeço nas estrelas que o compõem e dão beleza, como um bonito jogo de luzes que o mundo nos presencia. É magnífico observar algo que poucos podem explicar ou compreender, morrendo na magia de apenas apreciar e ver. É para lá daquelas nuvens, para além daquelas estrelas que mora o que não conhecemos. Que vive o infinito por ser impossível determinar o seu final.

Existe quem ignore. Quem não perca tempo a olhar o céu como por vezes eu faço. Como por vezes me deito. Olhando-o. Admirando-o. Como se as estrelas subitamente fossem descer do céu para me saudar de toda a sua luz. Como um aviso. Como algo para além do seu brilho. Estrelas são estrelas e muitas delas habitam a terra. Mesmo assim nunca as conseguirão ver brilhar. Porque vocês não olham e quem não olha com olhos de ver, dificilmente encontrará a verdade.

Fevereiro 8th, 2012

Ríspido sabor da brisa gelada

garota neve

Corre uma brisa, que me afoga e não avisa, no sentimento que tenho por ti. Quero abraçar-te no quente, do frio ignorado da gente, que ignora tudo o que vi. Vi para além do visível, que a visão pretende presenciar e muito além do perceptível para um comum mortal observar. Vi nas entranhas do frio que no teu coração se derretia quente, vi para além das suas artérias que bombeavam descuradamente.

Vi sem na verdade ver o que na mente presenciava, um coração de ouro no corpo de uma rapariga reservada. Num sorrido medido e sincero, numa palavra que não atropela o verso, numa medida de palavras, numa brisa sem regresso. Sussurrei com voz doce à brisa que teima em te gelar, perguntei porque te gela, porque não te faz brilhar. Ela respondeu que só eu tenho essa função, deixou de emanar o seu frio e aqueceu-me o coração.