Archive for the ‘Contos’ Category
História: Relação Indecente
Mais um ano, mais uma vez, se deslocava meu corpo escuro, para uma escola ainda mais escura, para mim totalmente sem cor. Talvez o local ideal para alguém como eu. Népia! Preferia, antes estar em casa, invadida por uma boa garrafinha, sufocada em muito fumo e sobretudo com minhas amigas tontas para me apoiarem. Como sempre levava meus ouvidos ofuscados pelo som exagerado do meu ipod que naquele preciso momento tocava Slipknot – Spit it out. Sempre pensei, se as musicas são para se ouvirem, porque ouvilas baixo? Não! Prefiro partilhar com toda a gente. Não tinha pressa, mas mesmo assim movia-me rapidamente, confesso que musica para mim era como dopping, e naquela altura estava dopada. Entrei na escola apressada demais, e acabei por chocar violentamente, com um rapaz no corredor. Caí, ele ajudou-me. Chamei-lhei de muitos nomes, por este ter chocado comigo, sem nunca lhe ver a cara. Ele respondeu dizendo, “tem calma miúda, só te quero ajudar, vou esquecer o que disseste, mas agora vai para a tua sala, que eu também tenho uma aula para dar”. Bloquiei. Uma aula para dar? Ele era professor? Minha alma estava parva, e também eu, para depois de 5 segundos ainda estar a pensar nele. Que se passou pela minha cabeça. Pessoas daquelas não me excitam, por isso nem vale á pena ocuparem espaço na minha mente. Segui para a sala, não tinha fuga, e não tinha vontade de gastar minhas faltas logo no primeiro dia. Minhas amigas já se encontravam sentadas, e apesar de ter chegado atrasada o professor ainda não se encontrava na sala. Estranho talvez. Entretanto entra ele, o mesmo que encontrei no corredor. “Desculpem o atraso, sou novo na escola, e acabei por ter um contra-tempo no corredor”. Pois um contra-tempo chamado. Alicia.
A aula decorreu no normal, não sei a razão, mas sei que prestei um pouco mais de atenção ao que o professor dizia. Não conseguia perceber o que se passava comigo. Primeiro o nosso choque, o facto de tudo ter ficado resumido a simples insultos, e agora isto? Ele ser o meu novo professor? E porque lhe prestei tanta atenção? Preciso mesmo de falar com alguém. A aula terminou, decidi então dar uma escapada com uma amiga minha, para lhe contar o sucedido. Esta era a nossa única aula do dia e não havia razão de nos mantermos na escola. Fomos ambas, para minha casa, minha mãe estava no seu “trabalho”, daqueles que o corpo faz o dinheiro e meu pai esse tava a descansar, digamos num descanso eterno, por isso não há razões para não irmos para lá. Descemos à cave, onde tinha o que chamava o meu refúgio. As paredes estavam completamente cobertas de posters, eram pretas, tinha dois sofás pretos, uma pequena televisão e ainda uma aparelhagem. Que posso dizer? Mais que perfeito. Minha amiga Jessy estava mais que impaciente para saber o porque de irmos para ali, o porque de eu estar estranha, porque estava. Acendi um cigarro e abri uma cerveja, precisava de me acalmar e era exactamente isso que me ajudava a faze-lo. Comecei por explicar o ocorrido antes da aula, foquei todos os detalhes para nada faltar. Contei também que o nosso querido professor era a mesma pessoa com quem teria chocado. Minha amiga ficou surpresa e disse “Eu conheço-te! Pela importância que lhe dás, estás completamente apanhada por ele”. Fiquei sem reacção, não sabia o que disser, nunca teria antes estado apaixonada, não! Eu sou mais de coleccionar confesso, irrita-me ter um homem por mais de uma noite. Então retorqui para Jessy “Não pode ser possível…”. Ela sorriu e disse, “Não te preocupes, fica o nosso segredo, não conto a ninguém. Mas se realmente o desejas, mostra-lhe o teu melhor lado”. Tinha a cabeça em água, não sabia o que pensar… decidi ficar sozinha por momentos, algo que poucas vezes faço, expulsar uma amiga. Mas fiz!
Como já esperava, não aguentei muito tempo sozinha, então decidi mandar uma mensagem à minha colega, dizendo o seguinte “Jessy desculpa querer ficar sozinha, já sinto a tua falta, vem ter a minha casa e traz 10€ daquilo, desta pago eu. Beijo”. Esperei cerca de uma hora, sozinha no sofá, apenas com a música e estúpidos pensamentos a quererem me distrair. Apressei-me a abrir a porta, e fiquei contente ao saber que Jessy não estava chateada, fiquei também contente de ela ter comprado os 10€. Agora sim ia começar a diversão, descemos a escadas que nos separavam do andar inferior. E apressei-me a arranjar o material necessário para a construção de mais um “libertador” é assim que lhe chamo, porque digamos que me liberta e me leva a fazer coisas que nunca pensei fazer. Gosto disso, daí fumar. Demorei mais que o habitual a enrolar e a deixar tudo direito, tremia, talvez devia ao tempo que estive parada. É verdade por vezes acho-me hiper-activa. “Libertador” feito e decisão de que seria Jessy a primeira a fumar, esta concordou claro. Fumou pouco mais de metade, e pouco depois já se sentia noutra. Fumei o que restava e quando acabei, confesso que me sentia tonta, meio desorientada… Não sou fraca, talvez tenha sim exagerado na dose. Ficamos a duas deitadas no meu sofá, dizendo coisas tolas, das quais riamos por tudo e por nada. Entretanto e para minha admiração, Jessy começou a tocar-me. “Que estas a pensar fazer Jessy?”. Ela apenas respondeu “Estou curiosa em provar um pouco do teu corpo, afinal gostas de mim ou não?”. Não respondi, não sei se aquilo era vontade dela ou se era mesmo o efeito do libertador, mas também não me importei, e deixei-me levar. Ela tocava-me como nunca ninguém o tinha feito, parecia conhecer todos os pontos onde gosto de ser tocada, para além de saber como toca-los. Pensei em parar, mas o corpo mandava e naquele momento estava em êxtase. Ela despiu-me, beijou-me e ambas atingimos o ponto máximo. Foi bestial. Ela acabou por ficar para jantar. Minha mãe ainda não tinha aparecido em casa por isso acabei por comer uma piza, acompanhada por mais uma cerveja. E decidi também que Jessy ficaria a dormir em minha casa, como no dia seguinte só tínhamos aulas de tarde, assim foi.
Seguimos escadas acima até ao meu quarto, que se encontrava no segundo piso, mesmo ao lado do quarto de minha mãe, que como sempre ainda não estava presente. Não posso dizer que ficava contente pelo estilo de vida de minha mãe, porque não ficava, mas o tempo levou a que me habitua-se e o facto de nunca me faltar nada e de ser a minha mãe a pagar-me tudo também. Ficamos ambas no quarto vendo vídeos assustadores, um dos nossos passatempos favoritos. Ainda nenhuma de nós teria ousado tocar no assunto que nos envolve a ambas nuas no meu sofá, mas na verdade gostava de falar sobre isso, gostava de saber se para ela foi tão especial como foi para mim. Foi então que decidi falar e quebrar aquele silêncio que nos envolvia. Quando estava prestes a faze-lo, sinto a porta da entrada abrir, sabia que era minha mãe, sabia que vinha acompanhada, mas sobretudo sabia que era horas de deitar e fingir de morta, porque segundo ela um mínimo barulho poderia afastar o cliente e isso para mim simbolizava o afastamento do dinheiro. Foi isso que fizemos, deita-mo-nos ambas ouvindo os murmúrios e gemidos de minha mãe. Devem pensar que estava envergonhada ou que isso me transtornava de certa forma, mas estão errados. Os gemidos, a sensação de prazer, o gemer da própria cama, estava habituada a tudo isso e para ser sincera, tudo isso me excitava. Sobretudo com Jessy a meu lado e depois do que aconteceu à tarde. Apenas proferi as palavras “Boa noite” enquanto a abraçava bem forte afim de me manter quente. Com um dia tão preenchido e ocupado só pensava agora em dormir e foi isso que aconteceu, porque adormeci logo de seguida.
Acordámos, minha mãe já tinha saído, não havia aulas de manhã por isso também não havia qualquer pressa. Mudamos juntas de roupa de roupa, cada uma olhou o corpo de outra de forma diferente, conseguia senti-lo. Acabamos de nos vestir e achei então ser o momento certo para retomar o assunto que ontem ficou pendente. “Jessy acho que precisamos de falar”. Jessy não disse uma palavra, aliás fingiu ignorar-me e logo de seguida beijou-me. Fiquei sem reacção mas ao mesmo tempo retribuí, porque tinha a certeza que era mesmo aquilo que eu queria e agora mais do que nunca, tinha a certeza que ela queria exactamente o mesmo. Confesso… Sou diferente em muita coisa, aqui está mais uma diferença, não posso afirmar que gosto de mulheres mas posso garantir que uma me fascina e me faz a pessoa mais feliz do mundo. Será isso crime? Serei eu uma pecadora? Nada me importa, sempre ouvi disser de meu pai quando este era vivo “Busca a tua felicidade acima de tudo” e neste momento em que a beijava era isso que fazia. Acabado o beijo, Jessy retorquiu “Fica mais um dos nossos segredos?”. Eu disse que sim e acabei por dizer que a amava muito porque sabia que ela sentia o mesmo, mesmo sendo eu mulher. Acabados os carinhos tomamos o almoço e seguimos juntas para a escola. Momentos depois encontrava-mos-nos dentro da sala de aula com o professor desastrado á nossa frente. A aula foi longa mas por alguma razão passou bem rápido. No final da aula o professor mandou toda a gente sair, excepto, eu e Jessy. O que queria ele de nós? Porque ficamos apenas as duas? Não sei mas estava prestes a descobrir.
O professor esperou que todos saíssem antes de nos proferir qualquer palavra. Depois disse com ar preocupado “Penso que o vosso aproveitamento é muito pouco, talvez por dúvidas que residam nessas vossas cabeças, que me dizem de vos dar umas explicações?”. Vi na cara de Jessy que não queria aceitar, mas eu pelo contrário, mesmo o odiando, convencia a aceitar, parecia-me o plano perfeito para lhe fazer a vida negra. O professor tinha apenas 25 anos, nem parecia ser má pessoa, por isso pensei não haver nenhum problema quanto ás explicações. Este vendo as nossas caras apressou-se a disser “Existe um pequeno problema, não tenho tempo de vos dar a explicação aqui, mas podem seguir-me até minha casa, não é muito longe daqui”. Aceitamos e fomos rumo à nossa primeira explicação. Andamos cerca de meia hora, para uma casa que de perto não tinha nada. A casa encontrava-se longe de tudo e todos, e tinha aspecto de ser velha. O interior também não diferia muito, para um professor digamos que tinha uma casa meio dessarrumada, mas não fizemos caso. A explicação foi fenomenal, pudemos conhecer melhor o professor e ver que as explicações dele se resumem rigorosamente a nada, falamos cerca de 5 minutos na máteria e o resto do tempo, foi ocupado com conversa sobre nós, gostava de saber a curiosidade do professor em relação a nós, porque tantas perguntas? Mas não fazia caso. Este ritmo escola, explicações prolongou-se por vários dias, cada vez mais percebiamos o quanto o professor era boa pessoa, divertido, brincalhão, giro e sobretudo sexy. Sim. Confesso atraía-me. Certo dia, durante uma explicação, aconteceu, a conversa recaiu em sexo, sentia nele, que gostava de falar sobre isso em frente a duas jovens estudantes, mas porque não faze-lo? Sim isso mesmo, faze-lo. Armei-me em louca, e levei-o para o seu quarto, juntamente veio Jessy, tivemos uma excelente relação a três. Confesso que adorei, poder estar ao lado da pessoa que amo, e sobretudo de um homem feito, algo que nunca tinha tido. Não usamos qualquer protecção, nem fizemos qualquer pergunta, não houve tempo. Apenas o prazer reinava. Vários dias passaram, depois desse acontecimento, e vários acontecimentos sucederam no mesmo quarto, confesso já estar farta, enquanto que via Jessy sempre muito entusiasmada. Muitas vezes ia sozinha ter com ele, como se tivesse medo que o roubasse de alguma forma. Um dia de uma semana de férias, lembro-me de ela me disser algo que me chocou, foi mais ou menos assim “Sinto-me tonta, tenho vómitos, não tenho período há tanto tempo, por favor diz-me o que se passa comigo”. Fizemos os testes, deram positivo, Jessy estava grávida e como é óbvio não poderia ser de mim, mas sim…. do professor. Ela entrou em pánico, porque não sabia como este ia reagir. Tentei acalma-la dizendo-lhe que o professor era um porreiro e que parecia gostar dela a sério. Aconcelhei-a a ir ter com ele no dia seguinte, sozinha e contar-lhe o sucedido. Foi isso que ela fez…. ainda aguentei 10 minutos mas não resisti a tentar ir espreitar a conversa, foi o que fiz e também o que nunca devia ter feito.
Quando me aproximei de sua casa, conseguia ouvir gritos que reconhecia serem de Jessy. Aproximei-me e espreitei por uma janela entreaberta. Ele estava a agarra-la no pescoço com demasiada força para ser apenas um carinho, com demasiada força para ser um simples abraço. Ele estava a sufoca-la. Fiquei branca, sem forças e sobretudo sem reacção. Pelo vidro conseguia ver a cara de horror de Jessy, o modo como ela se desvanecia, rompida pela força de tão grandes braços. Ao ver aquilo, ao ver Jessy cair no chão morta, senti-me fraca, por não ter feito nada, mas também já tinha vindo tarde, o meu pensamento é, o que fui eu fazer? Porque a deixei vir sozinha. Fui para casa, sem cabeça para pensar o que iria fazer. Estava com medo, triste, com nojo de mim própria por ter feito sexo com alguém assim sem coração. Considero-me parva, toda a minha vida, fazendo o que sempre quiz sem nunca me importar de nada, apenas de uma coisa, a Jessy, a menina que amo e que agora acabei por perder. Esperei toda a noite acordada pelo dia seguinte, já tinha decidido, iria fazer justiça pelas minhas próprias mãos. Peguei a arma de meu pai, visto que este quando vivo era Vigilante, e visto eu saber onde esta estava escondida. Tinha balas, tinha coragem, tinha revolta dentro de mim. Finalmente tinha chegado o novo dia e também a hora da minha aula. Entrei na escola, com a arma na mochila, entrei na sala e assim que vi aquele traste entrar, disse “Isto é por tudo o que fizeste á minha amiga canalha” e disparei. O professor foi morto e eu por ter 18 anos, agora estou a terminar a minha pena, que para além de contar com uma morte, conta também com pose de drogas, entre outras coisas. Actualmente tenho 27 anos, falta-me um ano para me livrar desta cela. Se me perguntarem se aprendi algo, digo que aprendi demais. Aprendi que sempre fui algo que no fundo não era. Aprendi que as minhas atitudes não me levaram a nada para além da prisão. Aprendi que se a minha mãe era assim foi porque não ajudei. Aprendi também que o meu pai morreu cedo demais para me ajudar. Aprendi que temos de proteger o que mais gostamos, porque é sempre a primeira coisa que perdemos. E agora, fora da cadeia, só desejo o que todas as raparigas como eu desejam, poder voltar a nascer e fazer da minha vida completamente diferente. Por vezes perguntam-me quando conto a minha história se não sinto falta de algo dessa altura. Eu digo sim, mas apenas uma coisa. Jessy a pessoa que vi morrer, mas sobretudo a pessoa que eu amava…
História: Passos Incertos

Ali estava eu repetidamente, a sofrer os efeitos da droga fumada. Ria solitário junto de meus colegas, que no momento se riam similarmente. Naquele instante, apenas eu e minha cabeça existíamos, não pensava em mais nada, e confesso, que era estritamente por essa razão que fumava. Meus colegas mal sabiam o que devastava minha mente, por vezes nem eu próprio sabia, mas tinha dias, em que estacava isolado em casa, cogitando sobre a vida, e chorava, sem razões, como se a vida fosse mais fácil gotejando. Enquanto fumava, esquecia meu pai, verbalizando que nada faço, pronunciando que pouco valo, explicando que tudo o que faça desde cantar a escrever, é zero… Isso deixa-me mesmo triste. Será crime investir em algo que sabemos ter algum valor, algo em que nos identificamos? Algo que honramos fazer? Preferia ele que me encontra-se horas a fio num café, debruçando cervejas, jogando cartas e fumando droga? Engraçado, tinha parado 30 minutos da minha vida, meditando em nada, meus amigos já tinham saído e actualmente naquele local, no nosso local, apenas me deparava eu sozinho, aguardando passar o efeito da droga para me dirigir a casa. Foi o que fiz, instantes depois. Chegado a casa, dirigi-me ao meu quarto, onde peguei no meu caderno e escrevi. Actualmente estava a escrever algo a que apelidava de “a minha própria existência”, não é que fosse algo que milhões de pessoas tencionassem ler, mas principalmente era algo que me facultava satisfação em escrever. Escrevia sobre o que fazia, o que escrevia, o que pensava mas sobretudo o que vivia. Aquele livro era como um ensinamento que queria difundir. Costumam dizer que se aprende com os erros, então pensei, se erro tanto, porque não mostrar o lado positivo dos meus erros às pessoas, e faze-las não decair neles tal como eu fiz! E era isso que o livro tratava. Livro que neste momento eram apenas uns rascunhos, rabiscados, com letras que apenas eu compreendia, mas era um começo.
Confesso estar mesmo empenhado na escrita do livro. Um novo dia eclodiu e com ele veio a sujeição de ir à escola. Estava somente a concluir uma disciplina por isso não me podia queixar de não usufruir de tempo livre. Fui mais cedo para a escola como era hábito parando primeiro no spot frequente para fumar e encontrar pessoal amigo. Demorei pouco, visto não encontrar lá nem uma pessoa. Olhei o relógio e vi que ainda era tempo de aulas e daí o facto de ninguém estar presente naquele preciso instante. Decidi passear a escola sozinho para ajudar a passar o tempo. Observando á minha volta não via ninguém… Era engraçado como em tempo de aulas a escola ficava assim tão tranquila, tão oca, tão sem vida, contrastando claro com o intervalo sinónimo de euforia e muita confusão. No meio de tanta solidão, consegui avistar uma rapariga, sentada sobre a relva, ouvia música com o que parecia ser um ipod. Era mais nova que eu, vestia roupa preta rasgada, tinha o cabelo tingido por duas cores, loiro e preto, e seus olhos encontravam-se coloridos com um forte preto, mas apesar de tudo isto era muito bonita. Passei atento a ela, não conseguia desviar o olhar, como também não conseguia apenas passar. Decidi tentar abordá-la e foi o que fiz.
- Gosto muito dessa música que ouves – disse tentando colocar assunto.
Esta demorou um certo tempo, a reparar que estava falando com ela, pois o som se encontrava muito alto.
- O que disseste? – disse esta.
- Disse que gostava bastante da música que ouves.
- Conseguias ouvir? Não pensei estar tão alto – disse esta impressionada.
- Sim conseguia e a alguma distância, mas tudo bem, também aprecio música alta. Chamo-me Tiago e tu?
- Catarina, mas toda a gente me trata por Kate.
Trocamos um beijo e alguma conversa, durante o tempo restante para o intervalo. Depois tocada a campainha, dirigimo-nos em caminhos diferentes. Passei a aula de matemática pensando na tal rapariga, Kate, para além de bonita, era inteligente, simpática e muito divertida. Acabada a aula dirigi-me ao spot, para me encontrar finalmente com algum pessoal.
Caminhei pouco, visto que o spot se distanciava por poucos passos da minha escola. No curso recordei a relva onde Kate se via sentada, agora desabitado, recapitulei nossa conversa como relembrei também seu agradável sorriso. Agora próximo do spot conseguia avistar meus amigos o que me deixou satisfeito, por saber que agora teria um pouco de companhia.
- Até te vendia 20 – disse Jonny interessado no negócio.
- 10 apenas, não pretendo gastar toda a minha mesada nela.
E foi assim, fiz a compra, falei um pedaço com o pessoal e saí logo de seguida rumo a casa. Cheguei pouco depois a casa, estava vazia, minha mãe ainda trabalhava, visto que faltava cerca de uma hora para o almoço. Liguei o computador e minha cabeça brilhou com a ideia de procurar a suposta Kate no hi5. Ela tinha de ter, não deveria ser difícil de descobrir, imaginava eu. Vi a hora cessar velozmente, sem encontrar nada, sem a encontrar, como fui tão estúpido ao ponto de não pedir contacto? Telemóvel, email, nada. Tinha de a encontrar novamente, e desta vez tinha de lhe pedir contacto. Não será difícil, a escola não é assim tão imensa, e encontrar uma pessoa deve ser fácil, pelo menos mais acessível que no hi5. Minha mãe chegou, almocei calado e saí logo de seguida, não conseguia estar em casa, sabendo que aquela rapariga estava por aí á solta. Não tinha aulas, nem vontade de entrar na escola, mas foi o que fiz, e confesso ter passado a tarde dentro de corredores, para a frente e para trás, sem sinal dessa tal miúda. Decidi desistir, e queimar minha cabeça no spot do costume, sozinho, melhor talvez para reflectir. Avistei o local, e avistei alguém, afinal não estava vazio como pensava estar, mas quem estaria lá? Não conseguia ver-lhe a cara, tinha carapuço e parecia estar a fumar. Decidi aproximar-me e dizer olá. Há medida que esta levantou a cara, consegui perceber que era Kate, com olhos de quem tinha fumado um saco de droga.
- Tu? – disse esta assustada.
- Sim eu, prazer em ver-te, o que fazes aqui e o que raio se passou contigo para estares nesse estado? – perguntei eu, ansioso por receber resposta.
- Pensei ser a única a conhecer este local, confesso que me admirei com os sofás novos, mas nunca encontrei ninguém aqui a esta hora – respondeu esta, deixando a segunda parte da pergunta pendente.
- Estes sofás foram recuperados por mim e pelos meus colegas, e também pensei que fossemos apenas nós a conhecer este local, até o baptiza-mos como nosso.
- Isso quer dizer que não me querem aqui? – disse esta com ar preocupado.
- Não, nada disso, posso falar com eles, mas neste momento quero falar contigo.
- Comigo? Que fiz eu?
- Não me vais contar porque estás nesse estado? Ou vais continuar a fugir da questão? – disse eu com maior rigidez na voz.
- Não posso, nem quero – disse esta levantando-se.
Esta levantou-se evidenciando enormes dificuldades no acto, e caiu no chão logo de seguida. Entrei em pânico, não sabia o que fazer a seguir. Sabia que não podia ligar a uma ambulância, com a dose de droga que esta haveria consumido iria ter problemas, então achei que a solução mais sensata seria levá-la para minha casa, visto minha mãe não estar presente. Foi o que fiz.
– Que se passa? Onde estou? Que aconteceu?
- Tem calma, estás em minha casa, está tudo bem – disse eu tentando acalmá-la.
- Mas como vim aqui parar? E porque estou assim toda “borrada”, diz-me o que se passou?
- Tem calma, eu encontrei-te, naquele local, estavas sentada, lembras-te disso?
- Sim lembro, mas conta-me mais… – disse esta meio stressada.
- Tu querias ir embora, e tentas-te mas desmaiaste logo depois, o que fiz foi trazer-te ao colo, até minha casa.
- E porque estou assim? Porque tenho a cara molhada? – disse esta curiosa.
- Haa isso, foi porque estavas demasiado quente e então pensei ser boa ideia para ficares mais fresca, pensei que pudesses ter febre.
- Pois na verdade sinto-me um bocado quente e tonta… Obrigado por tudo a sério, mas talvez seja melhor ir-me embora, não quero estar a incomodar – disse esta levantando-se.
- Não! Não te vou deixar sair sem antes me contares o que se passou, porque que te aconteceu aquilo, conta para mim… Acho que é o mínimo que podes fazer, não te parece?
- Não chores por favor… Fala comigo, prometo que não te julgo – disse eu a fim de lhe inspirar confiança.
- Pois não devia chorar mesmo por quem não me merece – disse esta limpando as lágrimas.
- Quem não te merece? Fala de uma vez.
- Não aguento mais, simplesmente não aguento. Estou farta de ser julgada em casa, pela roupa que trago vestida, farta de ser julgada na rua pela minha aparência, farta que me coloquem um rótulo, só pela parte exterior. Farta que não procurem conhecer o meu interior, que apenas me lancem bocas como se tivesse feito mal a alguém. Gostava que eles percebessem que não tenho culpa em ser diferente e que não sou inferior a ninguém por o ser. Possa, este mundo está cheio de pessoas com as mesmas ideias, com o mesmo aspecto, com os mesmos feitios, qual é o problema de querer ser diferente?
- Kate, eu não vejo qualquer problema em ti, até pelo contrário, és uma rapariga sincera, verdadeira, amiga, não vejo mal nisso.
- Pois mas há sempre quem veja – disse esta.
- Não ligues… Sê quem tu és, e quem sabes que és, o que importa a opinião de pessoas que não te conhecem, aliás, que nem se dão ao trabalho de te conhecer? Vale zero.
- Acho que tens razão, obrigado, Tiago não é?
- Sim é isso.
- Acho melhor ir-me embora, começa a fazer-se tarde e também não quero causar-te nenhum problema – disse esta encaminhando-se para a saída.
- Eu faço-te companhia, lembra-te que não viste o caminho para cá, é natural que não o saibas fazer de volta.
- Ok então, agradeço novamente.
E assim foi, saímos ambos de minha casa, rumo a um local onde Kate pudesse seguir.
Parou para te beijar, e ver o amor suceder
Ontem, beijei teu ser, beijei teu interior
Ontem percebi, que o que sinto é amorPercebi, que fazes parte do jardim onde te encontrei
Percebi também, que és a rosa que dele eu guardei
Percebi que minha vida, só faz sentido contigo a meu lado
Percebi que após ontem, só posso sonhar acordado.
Para além de poemas, encerrava rabiscos de um desenho, de uma face, da face de Kate. Nunca tive jeito para o desenho, por isso opto por não mostrar. A aula acabou bastante rápido, não retive nada desta, naquele momento nem me fazia grande diferença, porque minha cabeça estava atestada com pensamentos de Kate. Saí da sala, e fui rumo ao spot para fumar um pouco da droga que havia adquirido, droga que ainda se encontrava intacta. Há medida que me aproximava via meus amigos cercados de polícia e de pessoas curiosas. Perguntei ao Jonny o que se passava preocupado, pois não percebia o porque de estar ali a polícia. Este disse-me “Parece que foi uma rapariga qualquer, que se suicidou, estás a ver uma daquelas punks, cá para mim não fazia muita falta”. Meu cérebro bloqueou, por duas razões, primeira achava totalmente parvo ele disser, que não fazia falta, sendo uma pessoa, é claro que uma pessoa faz falta, porque existe sempre quem a ama, e para essas pessoas é como se um bocado de si próprias se tenha apagado. E em segundo lugar porque não conseguia tirar da cabeça a ideia que pudesse ser Kate, a cometer tal feito. Pensei que ela ontem tivesse ficado bem, não consigo acreditar. Comecei a correr e furei toda a polícia que me tentou impedir de entrar no local, quando entrei, vi… Pendurada por uma corda, morta e pálida…
As paredes encontravam-se pintadas de preto, assinaladas por misteriosos símbolos. No chão estava marcado um círculo, arquitectado por velas que já se viam derretidas, o que apontava para o facto de já teriam sido ateadas á certo tempo. A rapariga, morta e ténue, colocou lágrimas nos meus olhos, era algo que não acreditava ver, pelo menos na vida real. Estava desgostoso pelo sucedido, apesar de meu consciente estar sorrindo por saber que não era Kate que se encontrava abrangida por aquela corda. Não conseguia traçar minha vida sem ela, mesmo sabendo que esta não gostava de mim, ou talvez da forma como beijava. Mas necessitava de pelo menos sentir a sua presença e saber que esta estava bem. Segundos depois vi meu pensamento detido por um polícia que me disse “ Qual a tua ideia garoto? Não podes estar aqui! Vá sai, deixa isto para a polícia, já chega de problemas por hoje”. Enquanto abandonava o local, consegui denotar uma tatuagem que a rapariga ostentava no seu pulso, mas não fiz grande caso. Saí a correr dali, Jonny tentou impedir-me, perguntando “Porque foste lá dentro?”; “O que lá viste?”; “Que se passa contigo”. Eram perguntas a mais, para aquele momento, segui a correr para casa, cheguei ao meu quarto e deitei-me na cama, chorando. Quando estava quase a desvanecer em sono, sou interpelado pelo toque da campainha. Achei estranho, não poderia ser a minha mãe, muito menos meu pai. Desci e abri a porta, era Kate.
- Que fazes aqui? – disse eu surpreendido.
- Andava aqui perto, e decidi passar por cá, fiz mal?
- Não, fizeste bem, acho que estava a precisar de companhia – disse eu denotando tristeza.
- Estás triste sobre o que se passou no local onde tu e os teus colegas iam?
- Como sabes disso? – disse eu impressionado.
- Haa, sabes as noticias correm rápido, apenas isso, mas vai convidar-me para entrar ou não? – disse esta meio nervosa.
- Sim claro entra.
Ascendemos ao andar superior, e fomos directos ao meu quarto. Liguei o televisor para evitar que o silêncio constrangedor se instaurasse.
- Diz-me porque vieste aqui? – perguntei curioso.
- Já te respondi a isso, não tinha nada para fazer e estava aqui perto, então decidi passar, mas se quiseres que vá eu vou.
- Não nada disso, podes ficar, apenas acho que não vieste apenas por isso – disse sem medo.
- Então porque achas que vim?
Nesse preciso momento, sabia que tinha de arriscar, e fazer algo que já tinha feito antes, mesmo que mal sucedido. Aproximei-me de seus lábios e sem pedir permissão para o fazer, beijei-os.
- Foi por isto – disse eu sorrindo.
Esta perdurou sem reacção, corou e pensei que iria bater-me ou levantar-se e simplesmente sair, mas não o fez. Ela aproximou-se de mim e de relance beijou-me novamente. Segundos depois estávamos ambos deitados na minha cama, lado a lado, cruzando beijos, beijos esses que nunca haveria trocado com ninguém, pelo menos assim tão violentos. Tinha algo em meu corpo que me fazia entender que não iríamos trocar apenas beijos e na verdade esse algo tinha razão. Porque envelhecidos pequenos instantes, esta se achava despida tal como eu. Passei minha mão bem como meus lábios em seus seios, formosos, excitados no momento. Beijei seu pescoço, enquanto descobria um pouco mais de seu corpo. Descendia minha língua por seu corpo, desde seus lábios até ao fundo de sua barriga, deixando esta com vontade de mais. Enquanto fazíamos sexo, focava seus olhos, sublimes demais para conseguir olhar em outro lado, olhos que de tão profundos, apetecia explorar e descobrir tudo o que desvendam. Acabado o acto ficamos deitados lado a lado, olhando um o outro, pensando talvez em montes de coisas, que nenhum de nós dizia, mas mesmo assim havia algo que não podia deixar de perguntar.
- Porque fizes-te isto? Se ontem fugiste assim de mim. – disse eu, deveras impressionado.
- Tinha de o fazer antes de…
Não conseguiu acabar, pois fomos interrompidos por um ruído, a porta de entrada… Tínhamos esquecido as horas, presumivelmente seria minha mãe. Kate levantou-se agitada dizendo:
- Que fazemos agora?
- Não te preocupes, veste-te rápido eu trato disto – disse eu mostrando confiança.
Enquanto esta se vestia, olhei novamente seu corpo, tão completo, tão sublime, demasiado perfeito para arquitectar que o tive em minhas mãos, carne com carne, amor com amor. Enquanto a observava, ouve algo em si que me estimulou atenção, o seu braço, o seu pulso, a tatuagem que esta tinha, a mesma, que a outra rapariga, a rapariga morta! Senti um calafrio invadir-me todo o corpo, pensei que pudesse ser coincidência, talvez fosse, é isso não pode passar de uma coincidência. Mas mesmo assim perguntei:
- Essa tatuagem… Quando a fizeste? – disse meio nervoso.
- Porque? Deixa isso para depois, tira-me daqui – disse esta ainda mais nervosa.
Ajudei-a a sair sem ser vista por minha mãe, que por alguma razão e para minha sorte, tinha vindo hoje mais tarde. Pouco depois jantei, e conversei com minha mãe sobre o que sucedeu perto da escola, visto ter sido interrogado por ela em relação a isso. Não enumerei detalhes disse somente o que tinha ouvido, encobrindo o que teria visto. Subi de seguida para o meu quarto, invadido com o pensamento de aquela tatuagem ter algo a ver com o enforcamento da outra rapariga, pois achava ser coincidência a mais, estas terem uma tatuagem exactamente no mesmo sítio. Adormeci pouco depois. Com a manhã veio a obrigação de ir a mais uma aula de matemática, dirigi-me para a escola, e á medida que me aproximava, conseguia ouvir o soar das sirenes, a polícia estava á porta. Mais um enforcamento, mais uma rapariga, mais uma tatuagem exactamente igual. Agora sim, meu corpo tremia de medo, lembrei-me de Kate disser, que “precisava de fazer sexo comigo antes de…”, de o facto desta saber do suicídio, e também de como ficou nervosa quando lhe falei disso, e sobretudo quando falei da tatuagem. Tudo fazia sentido. Saí rapidamente do local, a fim de tentar encontrar Kate, antes que fosse tarde demais.
Dei voltas ao espaço envolvente à escola, na expectativa de descobrir algo que me conduzisse a Kate. Tinha a absoluta noção que procurá-la seria como pretender encontrar uma agulha num imenso palheiro, mas a afecção, o medo, o desejo de a encontrar era mais forte que qualquer outra coisa. Sabia que somente eu possuía conhecimento daquela tatuagem, que apenas eu tinha compreendido a ligação desta com os suicídios e que apenas eu a poderia salvar. Isso apesar das lágrimas que conquistavam meus olhos, apesar de meu corpo estar de rastos, bem como minha cabeça, era isso que me fazia insistir, nunca considerando a possibilidade de desistir, mas desisti! Não consegui ir para casa, sabia que meus pais iriam ficar inquietados, mas naquele instante, eu estava mais preocupado. Dirigi-me então ao local do primeiro enforcamento, onde acabei por adormecer, sozinho numa pequena divisão. Acordei, assustado com curtos ruídos, que pareciam vir da divisão principal, não fazia a mínima ideia do que pudesse ser, sobretudo àquela hora, mas pareceu-me ouvir um som semelhante a passos. Espreitei, por entre a porta inexistente, procurando não ser visto, mas ver. Vi Kate, afeiçoando com velas algo que parecia ser um círculo. Vi a sua convicção em as ascender e amoldar de uma configuração muito cuidada. Vi também esta posicionar uma cadeira e passar sua mão suave, numa grossa corda, nomeadamente áspera. De seguida abriu um livro, recitando dele palavras que não compreendi, assinalando ao mesmo tempo as paredes, com símbolos estranhos que sinceramente me arrepiavam. Concluída a leitura subiu a cadeira, e colocou a corda no seu pescoço pronta para acabar com a sua vida. Foi aí, era altura de actuar, altura de provar que o que faria era errado, e evitar o pior, que era perder a pessoa que amava.
Invadi o compartimento onde esta se encontrava, deixando nesta um sentimento de raiva, com tendência a aumentar.
- Que fazes aqui? Como sabias que aqui estava? Saí por favor – disse esta chorando.
- Não saio sem ti… Se vim aqui foi com o intuito de te encontrar, e evitar o que estás prestes a fazer, que é acabar com a tua vida – disse eu evitando as lágrimas que se queriam libertar.
- Se o faço é porque quero não há nada que possas fazer – disse esta dando um pequeno paço na cadeira.
- Tem calma, apenas quero que me oiças, por favor.
- Não tens muito tempo, aliás não tenho muito tempo – disse esta nervosa.
- Eu digo na mesma e prometo ser rápido.
Segui na direcção a uma cadeira, coloquei-a perto dela, peguei uma corda e pendurei-a colocando-a á volta do meu pescoço e de seguida subi para a cadeira.
- Que pensas que estás a fazer? – disse esta ainda mais nervosa.
- Eu, se o fizeres vou contigo, vamos os dois.
- Porque?
- Porque? Tu és o melhor que já aconteceu na minha vida. Desde aquele dia em que te conheci, em que ambos partilha-mos o mesmo chão relvado da escola, percebi que eras a pessoa que eu amava. Nunca mais consegui tirar-te da minha cabeça, o teu sorriso, o teu olhar, o teu falar, tudo. Amo-te. Como podes deitar isso tudo abaixo? A nossa relação, o momento mais mágico que tive na minha vida. Nunca te tinha sentido tão perto. Lembras-te quanto tempo passou desde esse dia? Apenas um dia? Já esqueceste? Já esqueceste também o primeiro beijo, aquele no qual tu fugiste e me deixaste á toa? Por favor, não sei no que estás metida, mas sei que não tens de fazer isto. És tão nova, tens uma vida á tua espera, não precisa de ser comigo, se não me quiseres eu compreendo, mas por favor não estragues a tua vida. Prefiro perder-te para outro rapaz do que perder-te para sempre. Não consigo ser mais sincero que isto. E já me decidi, se o fizeres eu também o faço.
Completo meu discurso, Kate, retira a corda de seu pescoço e dirige-se para o chão onde se deita a chorar, apresei-me então na sua direcção.
- Desculpa, eu pensei… – disse esta chorando.
- Não precisas de dizer nada, estás bem agora, estás aqui comigo, nada te vai acontecer. Vamos embora daqui.
- Ok.
Dirigi-me á saída com Kate em meus braços. Ao passar a porta de saída, parei, tirei Kate dos meus braços e voltei a entrar na casa.
- Que vais fazer? – disse esta preocupada.
- Vou-me certificar que nada disto volta a acontecer.
Dirigi-me a um compartimento da sala, e retirei uma bilha de gasolina, que eu e meus colegas guardava-mos geralmente para as motas. Apressei-me a espalha-la pelo espaço e de seguida com uma vela, coloquei o edifício a arder.
É o que me recordo desse dia. Agora Kate encontra-se longe de mim, durante mais dois anos assim o será, afastados por mais de 1000 quilómetros. Ela estava bem, mas sua mãe preferiu leva-la a uma psicóloga, nos Estados Unidos. Apesar de não falar com ela há mais de um ano, e ainda faltarem dois para o seu regresso, não estou triste. Tive pena talvez, de não ter ficado com nenhum contacto. Mas depois daquela noite, depois de a conseguir fazer mudar de ideias, sei que por mais longe que esteja, sempre me irá amar, e não se irá esquecer de mim. Por isso agora apenas me resta esperar que esta volte, para finalmente podermos ser felizes. Se esta me tiver esquecido, uma coisa é certa, eu nunca a esquecerei.
História: Ninguém Percebe
Novamente, fiz tudo o que ele me pediu, possíveis e impossíveis, os imagináveis e também tudo aquilo que ele nunca imaginou eu fazer. Mas que desejará ele mais? Faço tudo em casa, sou a miúda de 17 anos que já não é criança, mas dona de casa e sobretudo mãe de si própria. Minha mãe morreu dois anos depois de eu nascer, e fiquei sozinha, com meu pai, meu monstro, pessoa que amo e odeio ao mesmo tempo. Juro… Juro, fazer tudo para o agradar, sempre com um sorriso na cara, mas é impossível, o seu gosto pela bebida, torna-o uma pessoa fria, sem sentimentos, sem coração, uma pessoa capaz de me magoar, sem apresentar ressentimentos pelo ter feito. Mas que posso fazer? É meu pai… Novamente me encontro a caminho da escola, com marcas no corpo, e também marcas na cara visíveis demais para se tentarem ocultar… Cada dia inventava uma nova desculpa, para os professores, porque não queria que soubessem o inferno onde me encontrava. Apenas tinha uma amiga, que sabia o que realmente se passava. Uma amiga apenas, numa escola com mais de 300 alunos. Não era popular, talvez o fosse, mas pelas razões contrárias. Eu era o alvo de chacota de toda a escola, sempre o tinha sido. Ninguém percebia, o porque das minhas marcas, ninguém percebia o porque dos meus desmaios, das minhas fraquezas, dos meus ataques de choro e também dos meus medos. Apenas Débora, mas fi-la prometer que nunca falaria da minha vida privada e sempre o evitou fazer. Esta ajudava-me em tudo o que era possível, por várias vezes me tentou convencer a entregar meu pai pelo que ele me faz, mas nunca tive coragem, não eu! Era mau demais para mim, não saberia o que disser, ou por onde começar. Actualmente minha vida é um inferno. Tenho medo de sair, medo de estar em casa, medo de ir á escola, aliás medo de tudo. Meu apoio és tu Débora e espero que nunca desapareças.
De volta a casa, pelo caminho despeço-me de Débora, esta apenas me diz, “Força, e até amanhã”. Não a censuro, ela não pode fazer muito por mim, sou eu que tenho de reagir não ela. Por vezes chego a pensar que ela tem mais força que eu, que sou uma fraca, que apenas vivo assim por minha própria culpa, que talvez até mereça. Mas que farei eu de mal? Pois sempre aprendi que apenas nos batem quando fazemos algo mesmo mau, e eu… Eu que procuro fazer sempre tudo bem. Porque? Também aprendi, que nada se resolve com violência, mas sim com palavras, porque será então que meu pai não me fala? Porque será que todos os seus gestos sejam para me magoar? Já vejo a minha casa, meu coração bate mais forte, meus olhos entristecem e meu medo aumenta. Abro a porta de entrada, e já oiço meu pai aos berros, reclamando com tudo, dizendo que a casa está uma confusão, dizendo que como mulher de casa deveria estar atenta a isso, mas como? Se uma coisa da qual não quero desistir é a escola, não, nunca! Ele não me irá tirar esse meu sonho… O único local que mesmo sendo criticada, posta de lado, envergonhada, pisada, me sinto bem. Porque apesar de todo o sofrimento que passo lá, nada se compara aquele que eu vivo em casa e na escola posso contar com alguém, a única pessoa que me percebe, nada mais do que a Débora. Mal jantei, mal dormi, as marcas do seu pesado cinto, ainda continuavam cravadas nas minhas costas, o sangue fresco nos meus olhos ainda se encontrava presente. Já não conseguia chorar, muito menos largar qualquer palavra, meu corpo parecia ter sido atingido violentamente por algo com o dobro do meu peso. Seria eu obrigada a viver assim para sempre? Não teria eu direito a escolher uma vida para mim, não teria direito a não ser machucada dia após dia? Já tinha decidido isto iria acabar e já amanhã. Fechei por fim os olhos esperando poder dormir pelo menos a hora que faltava até ao amanhecer, sabendo que o dia seguinte seria muito importante.
Ainda o sol não se via quando abandonei minha casa, sabia que tinha de sair antes de meu pai acordar. Sabia que nada poderia levar comigo, apenas a coragem, determinação e loucura para me livrar de vez de tal sofrimento. Caminhei longos quilómetros, em direcção a uma praia à qual recorria muitas vezes em momentos de sofrimento. Não posso dizer que não estava a sofrer porque estava, mas desta vez as razões eram diferentes. No topo daquela ravina eu observava o mar, reflectido pelos primeiros raios de sol de um novo dia, o meu último dia, o meu último amanhecer. Sentei-me num rochedo, pensando se valeria à pena, arriscar, acabar assim desta forma com tudo. Passaram-me frases de Débora em minha cabeça, das alturas em que ela me dizia, que existia sempre a polícia, que existiam pessoas que me podiam ajudar. Acreditava que sim, mas não tinha forças para as procurar. Não tinha coragem de contar tudo o que meu pai me fez, preferia acabar tudo de uma vez, e levar toda a minha vida comigo, afim de evitar perguntas. Não tinha muito tempo… Sabia que agora era o momento. Aproximei-me do precipício determinada a acabar minha vida para todo o sempre. Não pensei, ia atirar-me, mas uma voz forte, fez-me parar. Esta gritava “Para! Não faças isso, por favor!”. Não sei porque, mas inspirou-me confiança e não o fiz, simplesmente parei, enquanto tentava ver de onde viria aquela voz. Olhei a meu redor, não vendo ninguém. Pensei ser meu pensamento e precipitei-me novamente em frente, mas a voz soou novamente “Não o faças estou mesmo aqui”. Neste mesmo momento sinto alguém a tocar meu ombro, assim que me viro, vejo um rapaz, que me diz “Vamos ter calma, penso que precisas de falar. Segue-me!”. Foi o que fiz…
Hoje sou mulher, tenho vida, encontrei a vida, posso até dizer que nasci novamente. Poderia gastar palavras que descrevessem tudo o que aconteceu até hoje. Mas basta uma simples carta, a única que mandei, depois do meu desaparecimento, para a única pessoa que não queria perder, a Débora.
“Olá Débora,
Que saudades que tenho de ti… Desculpa, não estar a teu lado, desculpa não te ter dado ouvidos, mas não te preocupes eu estou bem. O que se passou foi que, eu estava prestes a cometer um crime comigo própria, e nesse mesmo momento, foi salva, pela pessoa mais espectacular deste mundo, com a qual vivo e namoro neste momento. Desculpa se te deixei preocupada, sei que o fiz, mas esta carta prova que não te quero perder, porque sempre foste a pessoa que me ajudou, mesmo não tendo ajuda possível… Um obrigado do fundo do coração para ti amiga. Agora nesta minha nova vida, sei o que é amar, sei que nem todas as pessoas são más, sei que o meu pai o era… Tudo aquilo que me dizias… Encontrei finalmente o meu caminho, estou prestes a acabar o 12º ano, trabalho, e tenho uma vida feliz, porque me sinto útil. Meu namorado tal como eu, também teve uma difícil infância, vive sozinho, não mais! Mas vivia… Ele trabalha, pois a despesa da casa não é muito barata. Eu quis desistir dos estudos para ir trabalhar e ajudar a pagar, mas ele não deixou… Disse que tinha potencial para ir bem longe, e que sempre poderia trabalhar em part-time, que querido! Como te disse hoje sou feliz. Junto com esta carta vai um outro envelope, contendo a minha morada e número de telefone… Conto com o teu telefonema e visita.
Beijo na melhor amiga do mundo!”
Que posso dizer? Acredito na vida… Tenho uma casa, tenho carinho, e continuo a ter as pessoas que amo ao meu lado. Hoje e finalmente sou uma rapariga feliz… Luta pelo que desejas, mesmo que as forças para o fazer sejam escassas… É a minha mensagem ao mundo.
Conto: Liberdade do Sentimento
Estava escuro, naquele bosque… Encontrava-me sozinho embora ao mesmo tempo com tanta companhia, criaturas sombrias e sem coração, que me perseguiam sem saber porque, ou o que queriam de mim. Fiquei sem forças, não conseguia fugir mais, estava exausto. Então decidi enfrentar o que me perseguia, e fiquei surpreso ao ver que era uma linda rapariga.
- Olá eu sou a bruxa da floresta, não sou assustadora, não possuo qualquer verruga, mas meu poder chega para te manter aqui preso para toda a eternidade.
- Não isso não! Por favor, preciso de sair deste lugar.
- E podes sair…
- Como? Por favor diz-me como.
- Basta me mostrares sentimento e serás livre, apenas isso.
- Mostrar sentimento? Mas como?
Não obtive resposta, a linda bruxa desapareceu, tão rapidamente como o seu aparecimento. Apenas se manteve o ar sombrio, agora aliado a uma dúvida de como mostraria sentimento, num bosque repleto de monstros. Continuei trilho acima tentando não dar atenção aos murmúrios das árvores e ao chiar dos animais, que tal como eu, pareciam não ter forças, sequer para se manterem de pé. Exausto e sem forças, deixei cair meu corpo sobre um monte de folhas secas, já sem vida. Adormeci e acordei momentos depois incomodado por uma forte luz, invulgar no meio de tanta escuridão. Que poderia brilhar tanto, num bosque tão escuro e sombrio? Decidi investigar, andando em direcção aquela luz. Descobri que a luz vinha de uma linda fada, que se encontrava debaixo de uma árvore velha. Esta era muito bonita, cabelo longo, escuro e uma figura muito esbelta. Esta parecia mais do que eu, estar assustadissima. Não pensei muito, avancei e decidi falar com tão bonita rapariga.
- Olá, estás perdida?
- Deixa-me em paz, por favor, não me faças mal. Eu prometo voltar para casa, apenas me perdi no meu caminho.
- Não te vou fazer mal, não sou um deles e também me encontro sozinho e sobretudo perdido.
Nesta altura a fada esboçou um sorriso lindíssimo, que desde logo me prendeu. Tinha vontade e expectativa que o esboça-se novamente.
- Posso saber o teu nome?
- Eu chamo-me Catarina. Ana Catarina.
- Bonito nome, mas sobretudo bonito sorriso.
- É muito gentil da tua parte, mas acho que deveríamos pensar em como sairmos daqui.
- Tens razão, vamos colocar-nos a caminho, eu protejo-te não te preocupes.
Fomos juntos, ambos assustados, trocando olhares e sorrisos que mostravam mais do que apenas medo. Subitamente a chuva começou a fazer-se sentir. Foi aí que corremos afim de encontrar-mos um abrigo, mas apenas encontramos sarilhos. A estrada tinha terminado, mas Ana, não teria percebido, e acabou por segui-la, até cair. Vendo-a cair, tive tempo de esticar minha mão e agarra-la. Ela disse várias vezes, deixa-me, salva-te a ti, mas eu simplesmente não era capaz. Usei toda a minha força e em esforço consegui traze-la para um local seguro, a terra. Ficamos os dois durante vários minutos, olhando um o outro, até que ela disse.
- Obrigado, salvaste-me a vida.
- Obrigado eu, fizeste mais que isso, deste-me a perceber o verdadeiro significado da vida.
- Sério? E qual é?
Não proferi uma palavra, simplesmente como a chuva que cai sem permissão, também eu a beijei sem permissão. Enquanto a beijava, seus olhos piscavam, seu corpo tremia, e o mundo mudava. A chuva parou, o dia nasceu trazendo com ele o verde e apagando todo o negro do bosque. Que significaria isso? Que tinha provado sentimento? Penso que sim… Confesso que era capaz de passar o resto dos meus dias naquele bosque, mas contigo do meu lado. Mas não foi preciso. Não contem este segredo a ninguém, mas desde que conheci tão linda rapariga, guardo uma fada no coração.




Kanał RSS
Twitter
Facebook
YouTube



Monólogo de uma máquina de lavar
Não aguento, andar às voltas todos os dias, deixa-me indisposta e a babar água durante todo o dia e depois fazem-me comer aquilo que eles chamam de detergente que aposto que nunca provaram porque senão não me dariam isso! E aquela comida cheia de botões que metem dentro de mim e com cheiros que ninguém consegue aguentar? Eu juro que tento comer aquilo, porque senão morro à fome, certo? Mas tem um sabor intragável e acabo só por lamber tudo e obrigo-os a retirar aquilo dentro de mim.
Mas há noite ainda é pior, tenho o cu da minha mestre em cima, o cu e outras coisas que não irei referir, mas é simplesmente horrível não sei que raio eles fazem só sei que abana muito e encaixam-se um ao outro, e em mim? A única coisa que encaixam é aquele líquido idiota e toda aquela comida dura.
Enfim o mundo que vivo é impossível. Já tentei várias vezes matar-me e destruir-me por completo enchendo-me de água mas nada resulta, porque sempre que o faço eles levam-me a um homem que mexe na minha boca e no meu cu, que por acaso gosto, e me deixa logo a 100%. Enfim esta é a minha vida, um simples máquina de lavar sem marca.