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Monólogo de uma máquina de lavar
Estou farta, não aguento todas estas voltas toda esta pressão que me é incumbida, simplesmente não aguento. Não tenho marca e mesmo que tivesse seria das mais rascas e baratas, porquê? Se faço tudo ou mais que as outras máquinas que passam o dia sentadas nas montras? Eu chego a funcionar três vezes por dia, e à noite ainda trabalho horas extras sempre que alguém decide fazer de mim uma cama sem almofadas.
Não aguento, andar às voltas todos os dias, deixa-me indisposta. E babar água durante todo o dia? Já para não falar que me fazem comer aquilo que eles chamam de detergente que aposto que nunca provaram porque senão não me dariam tal alimento! E aquela comida cheia de botões que metem dentro de mim e com cheiros que ninguém consegue aguentar? Eu juro que tento comer aquilo, porque uma máquina de lavar rasca como eu também tem fome. Mas tem um sabor intragável e acabo só por lamber tudo e obrigo-os a retirar aquilo dentro de mim. Vejo isso como a minha forma de vingança.
Mas ao cair da noite ainda é pior, tenho o cu da minha mestre em cima. Não sei que raio eles fazem e porque não optam pela satisfação e comodidade de uma cama nova como a que têm no quarto. Preferem esta máquina velha. Em mim a única coisa que encaixam é aquele líquido idiota e toda aquela comida dura.
Enfim, o mundo em que vivo é impossível e insuportável. Já tentei várias vezes matar-me e destruir-me por completo enchendo-me de água mas nada resulta, porque sempre que o faço eles levam-me a um homem que mexe na minha boca e teima em mexer nas minhas partes privadas o que me enerva ao extremo. Não tenho mãos como os estúpidos humanos, não posso simplesmente bater-lhe. Enfim esta é a minha vida, uma simples máquina de lavar sem marca.
Conto: Relação Indecente
RELAÇÃO INDECENTE

♥ Capítulo 1
Um ano tinha envelhecido. Novamente se deslocava meu corpo indistinto, para uma escola negra, para mim radicalmente sem cor. Para muitos o lugar ideal para a sobrevivência e conservação da minha espécie. Mas este ser humano e não animal ou robotizado não partilhava do mesmo parecer. Preferia estar em casa. Preferia estar submersa em bom whisky e sentir-me asfixiada em fumo, com as minhas amigas, que hoje motivam a saudade. Como habitualmente, os meus ouvidos encontravam-se cerrados em música a um volume capaz de deixar qualquer coruja surda.
Nunca fui apologista de guardar as coisas para mim própria, razão pela qual a minha música é repartida com todos os que me envolvem. Não tinha qualquer pressa, mas naquele instante movia-me rapidamente, como se a música fosse o doping que apressa o coração e as pernas a um ritmo proporcional. Entrei na escola acelerada demais, e acabei por colidir violentamente, com um rapaz no corredor. Caí e este ajudou-me prontamente. Não retribuí, porque nunca o fiz e muito menos me dignava a descer tão baixo. Ao invés, chamei-lhe mil nomes, que acabaram por não trespassar da minha cabeça. Perdi 5 segundos do meu tempo a pensar na situação e de seguida segui para a sala de aula. A minha vontade era de desaparecer, mas já que a minha vida tinha de ser esta, decidi ponderar e concluí que não deveria gastar as poucas faltas disponíveis logo no primeiro dia. As minhas amigas já se encontravam sentadas e eu apesar de atrasada, sorri ao perceber que o professor ainda o estava mais que eu. Chegou minutos depois e para o meu espanto era a mesma pessoa com quem tinha chocado há minutos no corredor.
- Desculpem o atraso, sou o vosso novo professor e acabei por ter um contra-tempo no corredor – disse este sorrindo na minha direção.
Um contra-tempo que eu chamaria de Alicia. ~
A aula assemelhou-se ao mesmo de sempre, uma grande e gorda seca. Mas por alguma razão, hoje a atenção não se encontrava de baixa, porque havia ouvido tudo o que o professor tinha dito. Não conseguia perceber o que se passava na minha cabeça, o porque de este não a abandonar. Percebi que tinha de falar com alguém, era expansiva e não conseguia reter tudo no meu interior. A aula terminou, decidi assim dar uma escapadela com uma amiga minha, afim de lhe contar o sucedido. Esta era a nossa única aula do dia, por isso não existiam mais motivos de ficarmos presas aquele espaço. Fomos ambas para a minha casa. A minha mãe estava no trabalho, daqueles que o corpo faz a maior parte do dinheiro. O meu pai descansava, um descanso eterno que há muito a vida lhe ofereceu.
Descemos à cave, o nosso pequeno refúgio, o meu pequeno mundo, que permitia a muito pouca gente a chave de acesso. As paredes estavam completamente cobertas de posters, como se de papel de parece se tratassem. No canto existiam dois sofás pretos e uma pequena televisão que fazia companhia a uma velha aparelhagem. No fundo possuía tudo o que necessitava nos momentos em que procurava fugir à realidade. A minha amiga Jessy estava mais que impaciente para saber o porque de toda a minha agitação. Acendi um cigarro e abri uma cerveja, precisava de me acalmar e era exatamente isso que me acalmava, ou que neste caso eu julgava me acalmar. Comecei por explicar o sucedido no corredor, bem como todos os detalhes importantes e essenciais para uma possível compreensão. A Jessy ficou surpresa e afirmou:
- Eu conheço-te bem o suficiente para garantir que lhe estás a dar importância a mais. Isso só pode significar que estás completamente apanhada por ele.
Fiquei sem reação, não sabia o que dizer, apenas poderia garantir que nunca antes na minha vida havia estado apaixonada. Sempre fui uma rapariga com uma paixão imensa nas coleções, influências que obtive com a minha mãe que achava ser impossível manter um homem por mais de uma noite.
- Não pode ser possível, talvez esteja a dar importância a mais a este caso – disse eu tentando desviar o assunto.
- Não te preocupes, fica o nosso segredo. Não vou contar a ninguém e se realmente o desejas, mostra-lhe o teu melhor lado.
Não sabia o que pensar e por momentos pedi para ficar só. Precisava de reorganizar todas as ideias na minha cabeça, como se de uma biblioteca se tratasse.

♥ Capítulo 2
Como já esperava, não foi muito o tempo que aguentei sozinha. Decidi enviar uma mensagem à Jessy, decidi que já podia voltar e que estava melhor na sua companhia. Esperei por mais de uma hora, tempo que consegui contar e em que o sono não me tinha vencido. Acordei com o tocar da campainha no piso superior, era a Jessy que me esperava. Abri a porta e descemos novamente à cave. Precisava de esquecer e investir todo o meu orçamento mental na diversão. Pensei então eu fazer um grande “libertador”, nome que decidi lhe dar pelo facto de me libertar e me conduzir a fazer coisas que nunca tive coragem de fazer. Sempre gostei disso, razão pela qual gostava de fumar.
Demorei mais que o habitual, as minhas mãos tremiam como nunca antes e o meu coração parecia querer irromper do meu interior. Ambas fumamos daquele “libertador”, que confesso me pareceu demasiado exagerado de dose, razão pela qual me sentia tonta e um quanto desorientada. Permanecemos ambas deitadas no sofá preto, proferindo piadas, das quais riamos sem qualquer razão. Entretanto num ato ingénuo Jessy começa a tocar de leve o meu corpo. Recuei e perguntei surpreendida.
- Que raio estás a fazer?
- Estava curiosa e estava a tentar dar-te um pouco de afeto, está visto que neste momento careces dele – disse esta com ar provocador.
Não respondi. Desconhecia se aquilo era a sua vontade própria ou um mero efeito do “libertador”. Mas naquele momento não liguei e deixei-a conduzir-me até aquele novo mundo que esta queria presenciar. Ela tocava-me como nunca ninguém o tinha feito antes. Parecia conhecer cada pedaço do meu corpo, todas as suas pequenas curvas e oscilações. Sabia também a melhor forma de os tocar. Pensei em parar, mas o pensamento não conseguiu vencer a vontade do corpo e então continuei. Esta despiu-me e ficamos ambas despidas, a tocar-nos mutuamente e a descobrir um mundo novo, completo e recheado de novos sabores.

Jessy ficou para jantar. Como a minha mãe ainda não estava em casa decidimos comer uma simples pizza acompanhada de mais uma cerveja. Decidi também que a Jessy ficaria a dormir em minha casa, visto que no dia seguinte apenas tínhamos aulas de tarde. Subimos até ao meu quarto que se encontrava no segundo piso, ao lado do quarto da minha mãe, que como habitualmente acontecia ainda não se encontrava presente. Não posso afirmar que me fazia feliz o estilo de vida que a minha mãe havia adotado, mas o tempo levou a que me habitua-se e não podia recriminar quem sempre me deu tudo e garantiu que todas as minhas despesas fossem pagas.
Ficamos ambas no quarto a ver vídeos assustadores de relatos paranormais, uma das nossa atividades preferidas. Nenhuma de nós tinha ousado tocar no assunto que nos envolvia a ambas nuas no sofá. Embora não falasse gostava de saber e responder à pergunta que me atormentava “Teria sido tão bom para ela como foi para mim?”. Decidi falar e quebrar todo aquele silêncio que nos envolvia, mas o barulho da porta de entrada antecipou-se e dissipou a minha tentativa. Sabia que era a minha mãe e pelos passos percebi que vinha acompanhada, tinha chegado a hora em que me devia deitar e fingir de morta. Segundo ela qualquer barulho poderia afastar o cliente e isso para ela era igual a não receber qualquer cêntimo. Não era frequente a minha mãe trazer alguém para a nossa casa e nunca tinha acontecido tendo eu companhia, embora nunca me tenha envergonhado disso. Para acrescentar a Jessy também sabia da sua “profissão”.
Deitamos-nos ambas ouvindo murmúrios e gemidos vindos do quarto ao lado. Os gemidos e aquela sensação de prazer de certa forma veio aumentar ainda mais o nosso constrangimento, mas pouco tempo foi necessário para que ambas tivéssemos adormecido. Quando acordámos a minha mãe já tinha saído, como não tínhamos aulas nessa manhã não havia nenhuma pressa. Mudamos de roupa junta, e sinto que cada uma olhou o corpo da outra de forma diferente, conseguia de certa forma senti-lo. Acabadas de vestir senti ser o momento certo para retomar o assunto que ontem ficou suspenso.
- Jessy acho que precisamos de falar.
Jessy não proferiu uma palavra, fingiu ignorar-me e logo de saída de uma forma surpreendente beijou-me. Fiquei sem reação, mas retribuí da mesma forma. Nunca tinha tido uma certeza tão forte como aquela que me aproximava de ti.
Sempre fui diferente em tanta coisa, mas nunca me recriminei por isso, porque havia de ser recriminada pelos outros? Se tudo o que faço nada mais é do que lutar pela minha felicidade? Quando o meu pai era vivo, dizia sempre “Busca a tua felicidade acima de tudo” e naquele momento enquanto a beijava era isso que fazia. Acabados os carinhos, tomamos o pequeno almoço e seguimos juntas para a escola. Novamente encontrava aquele professor desastrado que um dia decidiu embater na minha vida. A aula passou relativamente rápido, mas o professor pediu que aguardássemos pelo final da aula para poder falar connosco em particular.

♥ Capítulo 3
O professor esperou que todos abandonassem aquela pequena sala e só depois nos falou.
- Estou preocupado com o vosso aproveitamento nas aulas, talvez existam muitas dúvidas nas vossas cabeças. Eu estou disponível para vos dar umas explicações. O que me dizem?
Vi na cara de Jessy que não queria aceitar, mas eu pelo contrário achei ser o plano perfeito para a minha vingança e decidi não haver qualquer problema e aceitar a proposta do professor. Ele tinha apenas 25 anos, não parecia de todo ser má pessoa, o que poderia correr mal?
- Existe apenas um pequeno problema, as explicações não podem ser dadas aqui na escola, porque teria de requerer como atividade extra, mas se quiserem seguir-me até à minha casa, não é muito longe daqui.
Aceitamos e pela primeira vez na vida sentia-me empenhada para ter uma explicação. Andamos cerca de meia hora, e pelos vistos o perto era apenas uma expressão, porque as minhas pernas já denotavam um certo cansaço. A casa encontrava-se longe de tudo e tinha um aspeto semelhante a um velho palheiro, não parecia de todo uma casa de habitação. O interior não diferia muito, mas como o professor era novo na cidade achamos normal e não fizemos grande caso. A explicação foi algo de fenomenal, ficamos a conhecer melhor o professor e conseguimos ver que as suas explicações se resumem a rigorosamente nada. Falamos por cerca de 5 minutos e o resto do tempo foi ocupado com um interrogatório onde este parecia querer saber cada detalhe da nossa vida.
Este ritmo repartido entre escola e explicações prolongou-se por vários dias e com o tempo fomos mudando a nossa opinião relativamente ao professor, bem como cada vez mais o achava mais atraente. Certo dia a nossa explicação e suposta conversa recaiu sobre sexo, sentia nele que gostava de falar no assunto, sobretudo quando se encontrava com duas jovens estudantes bastante mais novas. O que começou numa conversa acabou numa relação a três, pura loucura de uma jovem que não sabia nada do que era a vida. Uma jovem que não se importava com as consequências dos seus atos mas apenas com a sua concretização. No meio de tanta loucura não houve tempo para perguntas, muito menos para a devida proteção.
Vários dias passaram dado esse acontecimento e vários acontecimentos se sucederam no mesmo quarto. Confesso que com o tempo o prazer foi diminuindo, enquanto que o de Jessy aumentava e aumentava. Muitas vezes ia sozinha ter com ele, mesmo sabendo que eu tinha conhecimento disso. Um dia, numa semana das nossas férias, lembro-me de ela dizer algo que me chocou completamente, disse que se sentia tonta, que tinha vómitos e tudo apontava para uma gravidez que com o tempo e os devidos testes se veio a confirmar. Também havia certeza de quem era o pai e esse facto deixava-a em pânico completo porque não sabia como este iria reagir. Tentei acalma-la mesmo estando numa pilha de nervos, ver a pessoa que amo grávida de outra pessoa que não devia ter passado de uma simples aventura era como agulhas que se cravavam no meu coração.
Aconselhei-a a ir sozinha ter com ele e contar-lhe o sucedido. Foi isso que ela fez e eu com toda a impaciência a apoderar-se de mim decidi segui-la e espreitar a conversa de ambos. Fiz algo que nunca havia ter feito. Quando me aproximei de sua casa, conseguia ouvir gritos que reconhecia serem de Jessy. Aproximei-me e espreitei por uma janela entreaberta. Ele estava a agarra-la no pescoço com demasiada força para ser apenas um carinho, com demasiada força para ser um simples abraço. Ele estava a sufoca-la. Fiquei branca, sem forças e sobretudo sem reação. Pelo vidro conseguia ver a cara de horror de Jessy, o modo como ela se desvanecia, rompida pela força de tão grandes braços. Ao ver aquilo, ao ver Jessy cair no chão morta, senti-me fraca, por não poder ter feito nada. Tinha vindo demasiado tarde.
Apenas pensava no que tinha feito. Porque razão a tinha deixado vir sozinha? Fui para casa, sem cabeça suficiente para pensar no que iria fazer e no que deveria ser feito. Estava com medo, triste, com nojo de mim própria por ter mantido uma relação com alguém sem coração Considero-me parva, toda a minha vida, fazendo o que sempre quiz sem nunca me importar de nada, apenas de uma coisa, a Jessy, a menina que amo e que agora acabei por perder.
Esperei toda a noite acordada pelo dia seguinte, já tinha decidido, que iria fazer justiça pelas minhas próprias mãos. Peguei a antiga arma de meu pai que com o tempo ganhou pó e teias de aranha. Tinha balas, tinha coragem, tinha revolta dentro de mim. Quando chegou o novo dia entrei na escola, com a arma na mochila, entrei na sala e assim que vi aquele traste entrar, disse “Isto é por tudo o que fizeste à minha amiga canalha” e disparei. O professor foi morto e eu por ter 18 anos fui condenada à prisão.
Agora estou a terminar a minha pena, fui condenada por um homicídio e pela posse de drogas. Atualmente tenho 27 anos, falta-me um ano para me livrar desta cela. Se me perguntarem se aprendi algo, digo que aprendi demais. Aprendi que sempre fui algo que no fundo não era. Aprendi que as minhas atitudes não me levaram a nada para além da prisão. Aprendi que se a minha mãe era assim foi porque não ajudei. Aprendi também que o meu pai morreu cedo demais para me ajudar. Aprendi que temos de proteger o que mais gostamos, porque é sempre a primeira coisa que perdemos. E agora, fora da cadeia, só desejo o que todas as raparigas como eu desejam, poder voltar a nascer e fazer a minha vida de um modo completamente diferente. Não sinto falta de nada desse tempo, nada para além da minha amiga Jessy a pessoa que mais amava nesta vida e que acabei por perder graças à minha imaturidade.
Conto: Passos Incertos
Passos Incertos

♣ Capítulo 1
Ali me deparava novamente a sofrer os efeitos de uma junção de várias substâncias que se classificam de droga. Ria de um jeito solitário junto dos meus colegas. O momento conduziu a um riso em grupo. Naquele momento apenas e a minha cabeça parecia-mos existir, não pensava em nada. Era em nada que queria pensar, razão pela qual fumava.
Os meus colegas não sabiam o que devastava a minha mente, por vezes nem eu próprio sabia. Havia dias em que estacava isolado em casa, cogitava sobre a vida e chorava sem razões, como se esta fosse mais fácil gotejando. Quanto fumava, esquecia o meu pai, verbalizando que nada faço e pronunciando que pouco valo. Para este, escrever e cantar era zero e tudo para além do seu trabalho não tinha valor. Nunca percebi qual o mal de investir em algo em que acreditamos conseguir imprimir algum valor.
Tinha parado 30 minutos da minha vida, meditando em nada e meus amigos já tinham saído. Dirigi-me a casa, subi as escadas que me afastavam do meu quarto, peguei em meu caderno e escrevi. Atualmente escrevia o que apelidava de “a minha própria existência”. Não era algo que milhões de pessoas tencionassem ler, mas era algo que me facultava uma determinada dose de satisfação quando o fazia. Escrevia sobre o meu dia-a-dia, o que pensava e sobretudo o que vivia. Nunca gostei de repetir os meus erros, lutava para que as pessoas os conhecessem e não caíssem sucessivamente como comigo acontecia. Atualmente era apenas um livro, um rascunho com rabiscos, com letras que apenas eu compreendia.
Um novo dia eclodiu e com ele a sujeição de ir à escola. Estava somente dependente de uma disciplina, razão pela qual não possuía motivos para me queixar de falta de tempo livre. Fui mais cedo para a escola e como era hábito parei primeiro no spot, a fim de encontrar pessoal amigo, mas ninguém estava presente. Decidi então passear a escola sozinho para passar algum tempo. Não existia ninguém nas redondezas.
Era engraçado como em tempo de aulas a escola ficava tão tranquila. Tão oca. Tão sem vida. Era um contraste claro com o intervalo, sinónimo de euforia e confusão. No meio de toda aquela solidão consegui avistar uma rapariga. Esta encontrava-se sentada sobre a relva, que ouvia música no que parecia ser um ipod. Parecia ser mais nova que eu e vestia uma roupa preta e rasgada. Tinha o cabelo tingido por duas cores, loiro e preto e os seus olhos encontravam-se coloridos com um forte negro. Embora a descrição pareça negativa, tudo isso lhe conferia beleza. Passei atento a ele, não conseguia simplesmente desviar o olhar, como também não conseguia apenas passar. Decidi aborda-la.
- Gosto muito dessa música que ouves – disse tentando colocar assunto.
Fiquei por momentos esperando por uma resposta, mas o som impediu que esta tivesse ouvido o que disse.
- O que disseste? – disse esta.
- Disse que gostava bastante da música que ouves.
- Conseguias ouvir? Não pensei estar tão alto – disse esta impressionada.
- Sim conseguia e a alguma distância, mas tudo bem, também aprecio música alta. Chamo-me Tiago e tu?
- Catarina, mas toda a gente me trata por Kate.
Trocamos um beijo e alguma conversa, durante o tempo restante para o intervalo. Depois tocada a campainha, dirigimos-nos em caminhos diferentes. Passei a aula de matemática pensando na tal rapariga. Para além de bonita, era inteligente, simpática e muito divertida. Acabada a aula dirigi-me ao spot, para me encontrar finalmente com algum pessoal.
Caminhei pouco, visto que o spot se distanciava por poucos passos da minha escola. No curso recordei a relva onde Kate havia estado sentada. Agora encontrava-se desabitado. Recapitulei nossa conversa e relembrei igualmente o seu agradável sorriso. Fiquei satisfeito por avistar os meus amigos passos à frente. Não demorei muito e após uns minutos de conversa segui rumo a casa.
Cheguei a casa pouco depois. Estava vazia. Minha mãe ainda trabalhava, faltava cerca de uma hora para o almoço. Liguei o computador e minha cabeça brilhou com a ideia de procurar a suposta Kate no facebook. Presumia eu que ela deveria ter e que não seria difícil de encontrar. Vi a hora cessar rapidamente, sem encontrar nada, sem a encontrar. Pensava agora como tinha sido tão estúpido ao ponto de não pedir contacto. Nem telemóvel, nem email, rigorosamente nada. Tinha de a encontrar novamente, e desta vez tinha de lhe pedir contacto. Não poderia ser assim tão difícil, a escola não é tão imensa, e encontrar uma pessoa deve ser fácil.
Minha mãe chegou. Almocei calado e saí logo de seguida, não conseguia estar em casa, sabendo que aquela rapariga se encontrava por aí à solta. Não tinha aulas, nem vontade de entrar na escola, mas foi o que fiz, e confesso ter passado a tarde dentro de corredores, para a frente e para trás, sem sinal dessa tal miúda. Decidi desistir, e ir ao spot que agora se encontrava vazio, para poder refletir. Avistei o local, e avistei alguém. Afinal não estava vazio como pensava estar, mas quem estaria lá? Não conseguia ver-lhe a cara. Apenas podia dizer que tinha carapuço e se encontrava a fumar. Decidi aproximar-me e dizer olá. Há medida que este levantou a cara, consegui perceber que era a Kate, com olhos de quem tinha fumado um saco de droga.
- Tu? – disse esta assustada.
Bloqueei, não a aguardava ali naquele preciso momento. Não naquele local. Tinha uma determinação enorme em a descobrir até agora, mas depois de a ver, sobretudo naquelas condições não sabia o que disser ou como reagir. Pensei que aquele local, era apenas nosso. Pensei que apenas eu e os meus colegas soubessem da sua existência. O famoso spot, não passava de uma casa lindíssima agora abandonada e coberta de musgo e sujidade, com apenas uma divisão tratada, divisão essa que abarcava agora sofás sem qualquer indício de pó e uma mesa apenas.
Kate encontrava-se sentada num desses sofás, contraída e de cabeça entre os braços que a tapavam em conjunção com o carapuço. A admiração dela era percetível na sua cara, tal como eu não deveria esperar visitas. Ganhei forças e decidi falar, precisava de saber o que fazia esta ali, sobretudo naquelas condições.
- Olá. Prazer em ver-te. O que fazes aqui e o que raio se passou contigo para estares nesse estado? – perguntei eu, ansioso por receber uma resposta.
- Pensei ser a única a conhecer este local, confesso que me admirei com os sofás novos, mas nunca encontrei ninguém aqui a esta hora – respondeu esta, deixando a segunda parte da pergunta pendente.
- Estes sofás foram recuperados por mim e pelos meus colegas, e também pensei que fossemos apenas nós a conhecer este local.
- Isso quer dizer que não me querem aqui? – disse esta com ar preocupado.
- Não, nada disso, posso falar com eles, mas neste momento quero falar contigo.
- Comigo? Que fiz eu?
- Não me vais contar porque estás nesse estado? Ou vais continuar a fugir da questão? – disse eu com maior rigidez na voz.
- Não posso, nem quero – disse esta levantando-se.
Ao levantar-se Kate acabou por desmaiar e cair no chão mesmo à minha frente. Entrei em pânico, não sabia o que fazer. Sabia que não podia ligar a uma ambulância, com a dose de droga que esta haveria consumido iria ter problemas. Achei que a melhor solução e a mais sensata seria leva-la para minha casa. Foi o que fiz.

♣ Capítulo 2
Peguei-a em meus braços, e transportei-a para minha casa. Passei pelo trilho mais demorado, mas desprovido de pessoas, desviando assim as atenções. Não tencionava que pensassem erradamente, sobre o que se havia passado. Abri a porta de entrada, já cansado dos braços, não pelo facto de Kate ser pesada, mas sim pelo longo caminho que tive de percorrer com ela em meus braços. Subi ao piso superior, e deitei-a em minha cama, esta continuava inconsciente. Há medida que passava minha mão na sua cara pôde constatei que se encontrava bastante quente, talvez tinha febre. Desci as escadas novamente à procura de uma toalha que pudesse molhar e passar na sua cara, para tentar baixar a temperatura. Encontrei uma, molhei-a e passei-a em sua cara. Há medida que o fazia, a sua pintura ia caindo. Seus olhos pretos, agora encontravam-se desprevenidos de escuridão. Eu sabia que ela era lindíssima, mas depois daquilo não me restava qualquer dúvida. Fiquei a observa-la por vários minutos até que esta finalmente abriu os olhos, e meio assustada proferiu.
– Que se passa? Onde estou? Que aconteceu?
- Tem calma, estás em minha casa, está tudo bem – disse eu tentando acalma-la.
- Mas como vim aqui parar? E porque estou assim toda “borrada”, diz-me o que se passou.
- Tem calma, eu encontrei-te, naquele local, estavas sentada, lembras-te disso?
- Sim lembro, mas conta-me mais… – disse esta meio stressada.
- Tu querias ir embora, e tentas-te mas desmaiaste logo depois, o que fiz foi trazer-te ao colo, até minha casa.
- E porque estou assim? Porque tenho a cara molhada? – disse esta curiosa.
- Haa isso, foi porque estavas demasiado quente e então pensei ser boa ideia para ficares mais fresca, pensei que pudesses ter febre.
- Pois na verdade sinto-me um bocado quente e tonta… Obrigado por tudo a sério, mas talvez seja melhor ir-me embora, não quero estar a incomodar – disse esta levantando-se.
- Não! Não te vou deixar sair sem antes me contares o que se passou, porque que te aconteceu aquilo, conta para mim… Acho que é o mínimo que podes fazer, não te parece?
- Não chores por favor… Fala comigo, prometo que não te julgo – disse eu a fim de lhe inspirar confiança.
- Pois não devia chorar mesmo por quem não me merece – disse esta limpando as lágrimas.
- Quem não te merece? Fala de uma vez.
- Não aguento mais, simplesmente não aguento. Estou farta de ser julgada em casa, pela roupa que trago vestida, farta de ser julgada na rua pela minha aparência, farta que me coloquem um rótulo, só pela parte exterior. Farta que não procurem conhecer o meu interior, que apenas me lancem bocas como se tivesse feito mal a alguém. Gostava que eles percebessem que não tenho culpa em ser diferente e que não sou inferior a ninguém por o ser. Possa, este mundo está cheio de pessoas com as mesmas ideias, com o mesmo aspeto, com os mesmos feitios, qual é o problema de querer ser diferente?
- Kate, eu não vejo qualquer problema em ti, até pelo contrário, és uma rapariga sincera, verdadeira, amiga, não vejo mal nisso.
- Pois mas há sempre quem veja – disse esta.
- Não ligues… Sê quem tu és, e quem sabes que és, o que importa a opinião de pessoas que não te conhecem, aliás, que nem se dão ao trabalho de te conhecer? Vale zero.
- Acho que tens razão, obrigado, Tiago não é?
- Sim é isso.
- Acho melhor ir-me embora, começa a fazer-se tarde e também não quero causar-te nenhum problema – disse esta encaminhando-se para a saída.
- Eu faço-te companhia, lembra-te que não viste o caminho para cá, é natural que não o saibas fazer de volta.
- Ok então, agradeço novamente.
E assim foi, saímos ambos de minha casa, rumo a um local onde Kate pudesse seguir.
Acordei cedo, pois tinha de me arrastar para a escola para ter uma aula de matemática, foi o que fiz apesar de muita dificuldade. Não sabia porque o fazia, ou porque lá ia, aquilo para mim era chinês ou uma qualquer língua irrealizável, impraticável e inexequível. Apesar de o quadro estar lotado de símbolos e fórmulas matemáticas, que deveriam completar parte do meu caderno, o mesmo não acontecia. Este abrangia palavras, interligadas em poemas, não me lembro muito bem, mas soava a algo como isto:
Ontem, meu mundo cessou para te ver
Parou para te beijar, e ver o amor suceder
Ontem, beijei teu ser, beijei teu interior
Ontem percebi, que o que sinto é amorPercebi, que fazes parte do jardim onde te encontrei
Percebi também, que és a rosa que dele eu guardei
Percebi que minha vida, só faz sentido contigo a meu lado
Percebi que após ontem, só posso sonhar acordado.
Para além de poemas, encerrava rabiscos de um desenho, de uma face, a face de Kate. Nunca tive jeito para o desenho, por isso opto por não mostrar. A aula acabou bastante rápido, não retive nada desta, naquele momento nem me fazia grande diferença, porque minha cabeça estava atestada com pensamentos de Kate. Saí da sala, e fui rumo ao spot. Há medida que me aproximava vi os meus amigos cercados de polícia e de várias pessoas curiosas que se tinham amontoado à volta do recinto. Perguntei ao Jonny o que se passava preocupado, pois não percebia o porque de estar ali a polícia. Este disse-me “Parece que foi uma rapariga qualquer, que se suicidou. Uma daquelas punks, não fazia muita falta”. Meu cérebro bloqueou, por duas razões, primeira achava totalmente parvo ele disser, que não fazia falta, sendo uma pessoa, é claro que uma pessoa faz falta! Existe sempre quem a ama, e para essas pessoas é como se um bocado de si próprias se tenha apagado. E em segundo lugar porque não conseguia tirar da cabeça a ideia que pudesse ser Kate, a cometer tal feito. Pensei que ela ontem tivesse ficado bem, não consigo acreditar. Comecei a correr e furei toda a polícia que me tentou impedir de entrar no local, quando entrei, vi… Pendurada por uma corda, morta e pálida…

♣ Capítulo 3
As paredes encontravam-se pintadas de preto, assinaladas por misteriosos símbolos. No chão estava marcado um círculo, arquitectado por velas que já se viam derretidas, o que apontava para o facto de já teriam sido ateadas á certo tempo. A rapariga, morta e ténue, colocou lágrimas nos meus olhos, era algo que não acreditava ver, pelo menos na vida real. Estava desgostoso pelo sucedido, apesar do meu consciente estar sorrindo por saber que não era Kate que se encontrava abrangida por aquela corda. Não conseguia traçar minha vida sem ela, mesmo sabendo que esta não gostava de mim, ou talvez da forma como beijava. Mas necessitava de pelo menos sentir a sua presença e saber que esta estava bem. Segundos depois vi meu pensamento detido por um polícia que me disse “ Qual a tua ideia garoto?
Não podes estar aqui! Vá sai, deixa isto para a polícia, já chega de problemas por hoje”. Enquanto abandonava o local, consegui denotar uma tatuagem que a rapariga ostentava no seu pulso, mas não fiz grande caso. Saí a correr dali. Segui a correr para casa, cheguei ao meu quarto e deitei-me na cama, chorando. Quando estava quase a desvanecer em sono, sou interpelado pelo toque da campainha. Achei estranho, não poderia ser a minha mãe, muito menos meu pai. Desci e abri a porta, era Kate.
- Que fazes aqui? – disse eu surpreendido.
- Andava aqui perto, e decidi passar por cá, fiz mal?
- Não, fizeste bem, acho que estava a precisar de companhia – disse eu denotando tristeza.
- Estás triste sobre o que se passou no local onde tu e os teus colegas iam?
- Como sabes disso? – disse eu impressionado.
- Haa, sabes as noticias correm rápido, apenas isso, mas vai convidar-me para entrar ou não? – disse esta meio nervosa.
- Sim claro entra.
Ascendemos ao andar superior, e fomos diretos ao meu quarto. Liguei o televisor para evitar que o silêncio constrangedor se instaurasse.
- Diz-me porque vieste aqui? – perguntei curioso.
- Já te respondi a isso, não tinha nada para fazer e estava aqui perto, então decidi passar, mas se quiseres que vá eu vou.
- Não nada disso, podes ficar, apenas acho que não vieste apenas por isso – disse sem medo.
- Então porque achas que vim?
Nesse preciso momento, sabia que tinha de arriscar, e fazer algo que já tinha feito antes, mesmo que mal sucedido. Aproximei-me de seus lábios e sem pedir permissão para o fazer, beijei-os.
- Foi por isto – disse eu sorrindo.
Esta perdurou sem reação, corou e pensei que iria bater-me ou levantar-se e simplesmente sair, mas não o fez. Aproximou-se de mim e de relance beijou-me novamente. Segundos depois estávamos ambos deitados na minha cama, lado a lado, cruzando beijos, beijos esses que nunca haveria trocado com ninguém, pelo menos assim tão violentos. Tinha algo em meu corpo que me fazia entender que não iríamos trocar apenas beijos. Envelhecidos pequenos instantes, ambos nos encontrava-mos despidos. Passei minha mão bem como meus lábios em seus seios, formosos, excitados no momento. Beijei seu pescoço, enquanto descobria um pouco mais de seu corpo. Descendia minha língua por seu corpo, desde seus lábios até ao fundo de sua barriga, aumentado sua vontade. Enquanto fazíamos sexo, focava seus olhos, sublimes demais para conseguir olhar em outro lado, olhos que de tão profundos, apetecia explorar e descobrir tudo o que desvendavam. Acabado o ato ficamos deitados lado a lado, olhando um o outro, pensando talvez em montes de coisas, que nenhum de nós dizia, mas mesmo assim havia algo que não podia deixar de perguntar.
- Porque fizes-te isto? Se ontem fugiste assim de mim. – disse eu, deveras impressionado.
- Tinha de o fazer antes de…
Não conseguiu acabar, pois fomos interrompidos por um ruído, a porta de entrada… Tínhamos esquecido as horas, presumivelmente seria minha mãe. Kate levantou-se agitada dizendo:
- Que fazemos agora?
- Não te preocupes, veste-te rápido eu trato disto – disse eu mostrando confiança.
Enquanto esta se vestia, olhei novamente seu corpo, tão completo, tão sublime, demasiado perfeito para arquitetar que o tive em minhas mãos, carne com carne, amor com amor. Enquanto a observava, ouve algo em si que me estimulou atenção, o seu braço, o seu pulso, a tatuagem que esta tinha, a mesma, que a outra rapariga, a rapariga morta! Senti um calafrio invadir-me todo o corpo, pensei que pudesse ser coincidência, talvez fosse. Mas mesmo assim perguntei:
- Essa tatuagem… Quando a fizeste? – disse meio nervoso.
- Porque? A tua mãe lá em baixo e tu preocupado com a tatuagem? – disse esta ainda mais nervosa.
Ajudei-a a sair sem ser vista por minha mãe. Subi de seguida para o meu quarto, invadido com o pensamento de aquela tatuagem ter algo a ver com o enforcamento da outra rapariga, pois achava ser coincidência a mais, estas terem uma tatuagem exatamente no mesmo sítio e exatamente igual. Adormeci pouco depois. Com a manhã veio a obrigação de ir a mais uma aula de matemática, dirigi-me para a escola, e à medida que me aproximava, conseguia ouvir o soar das sirenes, a polícia estava à porta. Mais um enforcamento, mais uma rapariga, mais uma tatuagem exatamente igual. Agora sim, meu corpo tremia de medo, lembrei-me de Kate disser, que “precisava de fazer sexo comigo antes de…”, de o facto desta saber do suicídio, e também de como ficou nervosa quando lhe falei disso, e sobretudo quando falei da tatuagem. Tudo fazia sentido. Saí rapidamente do local, a fim de tentar encontrar Kate, antes que fosse tarde demais.

♣ Capítulo 4
Dei voltas ao espaço envolvente à escola, na expectativa de descobrir algo que me conduzisse a Kate. Tinha a absoluta noção que procurá-la seria como pretender encontrar uma agulha num imenso palheiro, mas a afecção, o medo, o desejo de a encontrar era mais forte que qualquer outra coisa. Sabia que somente eu possuía conhecimento daquela tatuagem, que apenas eu tinha compreendido a ligação desta com os suicídios e que apenas eu a poderia salvar. Isso apesar das lágrimas que conquistavam meus olhos, apesar de meu corpo estar de rastos, bem como minha cabeça, era isso que me fazia insistir, nunca considerando a possibilidade de desistir.
Não consegui ir para casa, sabia que meus pais iriam ficar inquietados, mas naquele instante, eu estava mais preocupado. Dirigi-me então ao local do primeiro enforcamento, onde acabei por adormecer, sozinho numa pequena divisão. Acordei, assustado com curtos ruídos, que pareciam vir da divisão principal, não fazia a mínima ideia do que pudesse ser, sobretudo àquela hora, mas pareceu-me ouvir um som semelhante a passos. Espreitei, por entre a porta inexistente, procurando não ser visto, mas ver. Vi Kate, afeiçoando com velas algo que parecia ser um círculo. Vi a sua convicção em as ascender e amoldar de uma configuração muito cuidada. Vi também esta posicionar uma cadeira e passar sua mão suave, numa grossa corda, nomeadamente áspera. De seguida abriu um livro, recitando dele palavras que não compreendi, assinalando ao mesmo tempo as paredes, com símbolos estranhos que sinceramente me arrepiavam. Concluída a leitura subiu a cadeira, e colocou a corda no seu pescoço pronta para acabar com a sua vida. Foi aí, era altura de actuar, altura de provar que o que faria era errado, e evitar o pior, que era perder a pessoa que amava.
Invadi o compartimento onde esta se encontrava, deixando nesta um sentimento de raiva, com tendência a aumentar.
- Que fazes aqui? Como sabias que aqui estava? Saí por favor – disse esta chorando.
- Não saio sem ti… Se vim aqui foi com o intuito de te encontrar, e evitar o que estás prestes a fazer, que é acabar com a tua vida – disse eu evitando as lágrimas que se queriam libertar.
- Se o faço é porque quero não há nada que possas fazer – disse esta dando um pequeno paço na cadeira.
- Tem calma, apenas quero que me oiças, por favor.
- Não tens muito tempo, aliás não tenho muito tempo – disse esta nervosa.
- Eu digo na mesma e prometo ser rápido.
Segui na direcção a uma cadeira, coloquei-a perto dela, peguei uma corda e pendurei-a colocando-a á volta do meu pescoço e de seguida subi para a cadeira.
- Que pensas que estás a fazer? – disse esta ainda mais nervosa.
- Eu, se o fizeres vou contigo, vamos os dois.
- Porque?
- Porque? Tu és o melhor que já aconteceu na minha vida. Desde aquele dia em que te conheci, em que ambos partilha-mos o mesmo chão relvado da escola, percebi que eras a pessoa que eu amava. Nunca mais consegui tirar-te da minha cabeça, o teu sorriso, o teu olhar, o teu falar, tudo. Amo-te. Como podes deitar isso tudo abaixo? A nossa relação, o momento mais mágico que tive na minha vida. Nunca te tinha sentido tão perto. Lembras-te quanto tempo passou desde esse dia? Apenas um dia? Já esqueceste? Já esqueceste também o primeiro beijo, aquele no qual tu fugiste e me deixaste á toa? Por favor, não sei no que estás metida, mas sei que não tens de fazer isto. És tão nova, tens uma vida á tua espera, não precisa de ser comigo, se não me quiseres eu compreendo, mas por favor não estragues a tua vida. Prefiro perder-te para outro rapaz do que perder-te para sempre. Não consigo ser mais sincero que isto. E já me decidi, se o fizeres eu também o faço.
Completo meu discurso, Kate, retira a corda de seu pescoço e dirige-se para o chão onde se deita a chorar, apresei-me então na sua direcção.
- Desculpa, eu pensei… – disse esta chorando.
- Não precisas de dizer nada, estás bem agora, estás aqui comigo, nada te vai acontecer. Vamos embora daqui.
- Ok.
Dirigi-me á saída com Kate em meus braços. Ao passar a porta de saída, parei, tirei Kate dos meus braços e voltei a entrar na casa.
- Que vais fazer? – disse esta preocupada.
- Vou-me certificar que nada disto volta a acontecer.
Dirigi-me a um compartimento da sala, e retirei uma bilha de gasolina, que eu e meus colegas guardava-mos geralmente para as motas. Apressei-me a espalha-la pelo espaço e de seguida com uma vela, coloquei o edifício a arder.
É o que me recordo desse dia. Agora Kate encontra-se longe de mim, durante mais dois anos assim o será, afastados por mais de 1000 quilómetros. Ela estava bem, mas sua mãe preferiu leva-la a uma psicóloga, nos Estados Unidos. Apesar de não falar com ela há mais de um ano, e ainda faltarem dois para o seu regresso, não estou triste. Tive pena talvez, de não ter ficado com nenhum contacto. Mas depois daquela noite, depois de a conseguir fazer mudar de ideias, sei que por mais longe que esteja, sempre me irá amar, e não se irá esquecer de mim. Por isso agora apenas me resta esperar que esta volte, para finalmente podermos ser felizes. Se esta me tiver esquecido, uma coisa é certa, eu nunca a esquecerei.
Conto: Liberdade do Sentimento

Estava escuro naquele bosque. Encontrava-me sozinho, embora parecesse que estava rodeado de movimento. Não eram pessoas, mas sim criaturas. Criaturas da noite, procurando a sua presa. Procurando caçar a sua presa. Criaturas sem coração que me perseguiam a cada passa no desenrolar da noite.
Estava exausto, sentia não ter mais forças para fugir de quem tanto queria me apanhar. Sabia que não podia fugir mais. Sabia que me tinha de preparar para o confronto e esperar sair vitorioso. Parei e esperei. Meu espanto explodiu ao saber que quem me perseguia era uma bela rapariga. Sem nada de assustador ou estranho.
- Olá. Não tenhas medo. Sou a guardadora desta floresta.
- O que queres de mim? – perguntei surpreso.
- Não te posso deixar sair deste meu bosque.
- Não podes? Preciso de sair deste lugar – disse assustado.
- Basta que me mostres sentimento para poderes ser livre – disse a linda rapariga.
- Mostrar sentimento? Mas como?
Não obtive resposta, a linda rapariga desapareceu tão rapidamente como no seu aparecimento. Apenas permaneceu o ar sombrio, agora aliado a uma grande dúvida. Como poderia mostrar sentimento num bosque repleto de monstros?
Continuei trilho acima tentando não dar atenção aos murmúrios das árvores e ao chiar dos animais, que tal como eu, pareciam não ter forças, sequer para se manterem de pé. Exausto e sem forças, deixei cair meu corpo sobre um monte de folhas secas, já sem vida. Adormeci por momentos. Acordei um pouco mais tarde incomodado por uma luz forte, que parecia iluminar toda a escuridão. Decidi investigar e por mais difícil que fosse ir ao encontro daquela luz.
Descobri que aquela luz era provocada por uma fada que se encontrava debaixo de uma velha árvore. Era lindíssima, tinha um belo cabelo longo escuro e uma figura muito esbelta. Mas algo a incomodava, parecia estar assustada, bem mais do que eu próprio. Decidi avançar mais perto e falar com a bela rapariga.
- Olá, estás perdida?
- Deixa-me em paz, por favor, não me faças mal. Eu prometo voltar para casa, apenas não sei como. Perdi o meu caminho – disse a fada muito assustada.
- Não te vou fazer mal, não sou um deles e também me encontro sozinho e tal como tu perdido.
Nesta altura a fada esboçou um sorriso lindíssimo, que desde logo me prendeu. Tinha vontade e expectativa que o esboça-se novamente.
- Posso saber o teu nome?
- Eu chamo-me Catarina. Ana Catarina.
- Bonito nome, mas sobretudo bonito sorriso.
- É muito gentil da tua parte, mas acho que deveríamos pensar em como sair daqui.
- Tens razão, vamos colocar-nos a caminho, eu protejo-te não te preocupes.
Fomos juntos, ambos assustados, trocando olhares e sorrisos que mostravam mais do que apenas medo. Subitamente a chuva começou a fazer-se sentir. Foi aí que corremos afim de encontrar-mos um abrigo, mas essa procura apenas nos guiou a mais sarilhos.
A estrada tinha terminado, mas Ana, não tinha percebido, e acabou por segui-la, até cair. Vendo-a cair, tive tempo de esticar a minha mão e agarra-la. Embora esta tenha pedido várias vezes que a largasse eu não o consegui fazer. Usei toda a minha força e com esforço consegui traze-la para um local seguro. Ficamos os dois durante vários minutos, olhando um o outro, até que ela disse.
- Obrigado, salvaste-me a vida.
- Obrigado eu, fizeste mais que isso, deste-me a perceber o verdadeiro significado da vida.
- Sério? E qual é?
Não proferi uma palavra, simplesmente como a chuva que cai sem permissão, também eu a beijei sem permissão. Enquanto a beijava, seus olhos piscavam, seu corpo tremia, e o mundo mudava. A chuva parou, o dia nasceu trazendo com ele o verde e apagando todo o negro do bosque. Tinha finalmente provado sentimento. Confesso que era capaz de passar o resto dos meus dias naquele bosque, mas apenas com aquela fada a meu lado. Mas não foi preciso. Prometi guardar sempre este segredo e desde esse dia vivo com uma fada no coração.













